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HOMILIA
eSCRITA POR Pe. C.Madrigal, o.s.a.- ciriacomadrigal@gmail.com

DIA 23 DE JULHO DE 2017

A Liturgia deste Domingo mostra-nos um Deus paciente e cheio de misericórdia, que não despreza o pecador, mas deseja a integração dele na comunidade dos seus filhos. Ao mesmo tempo, convida-nos a mudar de pensamento, assumindo o mesmo modo de agir de Deus que tem, como principio, a justiça. Uma justiça que não é dura e fria, mas indulgente e misericordiosa. Ele perdoa os pecadores arrependidos sem, por isso, deixar de ser justo. É assim que ensina seus filhos a praticar a justiça sem deixar de ser verdadeiramente “humanos” (1ª leitura). Paulo insiste em apresentar a bondade e a misericórdia de Deus, afirmando que o Espírito Santo vem em auxílio da nossa fraqueza (2ª leitura). O Reino de Deus, presente no mundo, não é um clube exclusivo de “gente boa”; nele todos os homens (bons e maus) encontram a possibilidade de crescer como “o trigo entre o joio” (evangelho).
Se formos trigo limpo, brilharemos no Reino do Pai.

1ª Leitura: Sabedoria 12, 13.16-19

13 Por outro lado, além de ti, não há outro Deus que cuide de todas as coisas, e diante de quem devas defender-te da acusação de ser juiz injusto................. 16 De fato, a tua força é princípio de justiça, e o teu domínio universal faz que sejas indulgente para com todos. 17 Tu mostras tua força para quem não acredita na perfeição do teu poder, e confundes a insolência daqueles que o conhecem. 18 Apesar de tudo, dominas a tua própria força e julgas com brandura. Tu nos governas com muita indulgência, porque tu podes exercer o poder quando queres. 19 Com tal modo de agir, tu ensinaste ao teu povo que o justo deve amar os homens, e infundiste em teus filhos a esperança, porque concedes aos homens a possibilidade de se converterem depois de pecar.

O exercício do poder humano cai com freqüência em todo tipo de arbitrariedades e fragrantes injustiças nas diversas áreas da vida. O autor do livro da Sabedoria nos previne a respeito do poder baseado unicamente na força. Seus frutos não podem ser mais nefastos, na medida em que os honestos e desvalidos não podem reagir e acabam sendo atropelados sem piedade.

O poderoso costuma desviar-se para a opressão e tornar-se ditatorial justamente por sentir-se vulnerável e temer que outros possam tomar o seu lugar. Por isso luta com unhas e dentes para conservá-lo, fazendo com que aquele que lhe é subserviente, seja premiado e promovido enquanto que aquele que é crítico seja marginalizado e condenado ao ostracismo. O único que lhe interessa não é o bem da comunidade, mas a manutenção do seu poder.

O poder divino, no entanto, é diferente. Por ser ilimitado, não tem medo e se inclina à compaixão (“dominas a tua própria força e julgas com brandura”). No amor e na compaixão não tem lugar para a injustiça. Por seu poder ilimitado o Senhor é fonte de misericórdia e perdão (“Tu nos governas com muita indulgência, porque tu podes exercer o poder quando queres”).
O julgamento de Deus sempre concede tempo para a conversão e, agindo assim, ensina que “o justo deve amar os homens” e aprender a conjugar poder, justiça e misericórdia para o nosso mundo sair desse antro de injustiça, intransigência e desespero em que está se convertendo.


2ª Leitura: Romanos 8, 26-27

26 Do mesmo modo, também o Espírito vem em auxílio da nossa fraqueza, pois nem sabemos o que convém pedir; mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis. 27 E aquele que sonda os corações sabe quais são os desejos do Espírito, pois o Espírito intercede pelos cristãos de acordo com a vontade de Deus.

Paulo nos ensina o que fazer para acolher a salvação que Deus oferece. A salvação é um dom gratuito de Deus, fruto da sua bondade e do seu amor. Essa salvação chega a nós através de Jesus Cristo e age pelo Espírito que Jesus derrama sobre nós a partir do momento em que aceitarmos a sua Palavra e entrarmos a fazer parte da sua comunidade. O Espírito de Deus é a força para o nosso crescimento. Aconteça o que acontecer, o Reino de Deus vai crescer como resultado da ação deste mesmo Espírito.

No entanto, embora seja Deus quem nos dá a força para viver “segundo o Espírito”, devemos continuamente pedir essa graça. É assim que “o Espírito vem em auxílio da nossa fraqueza” porque, da nossa parte, “nem sabemos o que convém pedir”,
pois nem sempre conseguimos discernir entre a vida “segundo a carne” e a vida “segundo o Espírito”, “mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis”.

O Espírito faz o papel de mediador no nosso diálogo com Deus. Ele é nosso “intérprete” e intercessor diante do Pai porque conhece o nosso coração. Esta oração (que o Espírito “apoia” ou dirige dentro de nós) é sempre acolhida, pois está em conformidade com os planos e os projetos de Deus Pai.

Cegos pelo egoísmo, muitas vezes não conseguimos enxergar o caminho. O clamor do Espírito nos dirige e orienta conforme a vontade de Deus.  “Como pode o Espírito gemer sendo que goza com o Pai e o Filho da felicidade perfeita? – escreve Sto. Agostinho - ... O Espírito Santo não geme, então, em si mesmo…; geme em nós, porque nos faz gemer... Nos insinua que somos peregrinos e nos ensina a suspirar pela pátria definitiva e os gemidos são esses mesmos suspiros”.

O ritmo da vida moderna, as exigências profissionais, os problemas familiares, a necessidade de ganhar a vida, fazem de nós pessoas sempre ocupadas, sempre cansadas, sempre estressadas. Somos prisioneiros de uma máquina que nos desumaniza e não nos permite cuidar do essencial nem organizar os nossos valores e prioridades. É preciso, no entanto, encontrar tempo e espaço para redefinir o sentido da nossa vida, se percebermos estar levando uma vida “segundo a carne” e não “segundo o Espírito”.


Evangelho: Mateus 13, 24-43

24 Jesus contou outra parábola à multidão: «O Reino do Céu é como um homem que semeou boa semente no seu campo. 25 Uma noite, quando todos dormiam, veio o inimigo dele, semeou joio no meio do trigo, e foi embora. 26 Quando o trigo cresceu, e as espigas começaram a se formar, apareceu também o joio. 27 Os empregados foram procurar o dono, e lhe disseram: 'Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde veio então o joio?' 28 O dono respondeu: 'Foi algum inimigo que fez isso'. Os empregados lhe perguntaram: 'Queres que arranquemos o joio?' 29 O dono respondeu: 'Não. Pode acontecer que, arrancando o joio, vocês arranquem também o trigo. 30 Deixem crescer um e outro até à colheita. E no tempo da colheita direi aos ceifadores: arranquem primeiro o joio, e o amarrem em feixes para ser queimado. Depois recolham o trigo no meu celeiro!' » 31 E Jesus contou outra parábola: «O Reino do Céu é como uma semente de mostarda que um homem pega e semeia no seu campo. 32 Embora ela seja a menor de todas as sementes, quando cresce, fica maior do que as outras plantas. E se torna uma árvore, de modo que os pássaros do céu vêm e fazem ninhos em seus ramos.» 33 Jesus contou-lhes ainda outra parábola: «O Reino do Céu é como o fermento que uma mulher pega e mistura com três porções de farinha, até que tudo fique fermentado.» 34 Tudo isso Jesus falava em parábolas às multidões. Nada lhes falava sem usar parábolas, 35 para se cumprir o que foi dito pelo profeta: «Abrirei a boca para usar parábolas; vou proclamar coisas escondidas desde a criação do mundo.» 36 Então Jesus deixou as multidões, e foi para casa. Os discípulos se aproximaram dele, e disseram: «Explica-nos a parábola do joio.» 37 Jesus respondeu: «Quem semeia a boa semente é o Filho do Homem. 38 O campo é o mundo. A boa semente são os que pertencem ao Reino. O joio são os que pertencem ao Maligno. 39 O inimigo que semeou o joio é o diabo. A colheita é o fim dos tempos. Os ceifadores são os anjos. 40 Assim como o joio é recolhido e queimado no fogo, o mesmo também acontecerá no fim dos tempos: 41 o Filho do Homem enviará os seus anjos, e eles recolherão todos os que levam os outros a pecar e os que praticam o mal, 42 e depois os lançarão na fornalha de fogo. Aí eles vão chorar e ranger os dentes. 43 Então os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai. Quem tem ouvidos, ouça.»

Neste texto, que é exclusivo do evangelho de Mateus, lemos a “parábola do joio”, da “semente de mostarda” e a do “fermento” na massa. Dentre as três, a primeira pede uma atenção maior, não só por ser a mais longa e aparecer em primeiro lugar, mas também porque (como naquela da semente, no Domingo passado) é o próprio Jesus que explica o seu significado aos discípulos.

A parábola do trigo e do joio faz referência à mistura que existe na vida entre o bem e o mal, a graça e o pecado. A injustiça, a exploração e a inveja, misturam-se com gestos de generosidade, de amor e de justiça. É assim que acontece na vida prática e, nesta realidade ambígua y medíocre, é que cresce o Reino de Deus. Mas nem por isso devemos conformar-nos com a mediocridade. Dentro desta mistura em que vivemos, precisamos crescer. Não existe outro modo de buscar o Reino de Deus porque é nesta realidade concreta que ele se encontra, embora escondido.

Jesus mostra-nos nesta parábola que todos estamos a caminho e, sem deixar de ser exigentes conosco mesmos, devemos avançar todos juntos, suportando o peso das mediocridades uns dos outros.

A essência desta parábola radica no crescimento do Reino (“Deixem crescer um e outro até à colheita”). Até mesmo lá onde o “inimigo” semeou o joio, o Reino de Deus cresce seja como for. Ninguém o segura. Os “filhos do Reino” vivem nos mesmos lugares e ambientes onde estão os “filhos do Maligno”, mas o joio não precisa ser arrancado logo de cara. Deus tem infinita paciência e sabe esperar o trigo crescer. Só no final ficará definido o que cada um realmente é. De momento, tudo está a caminho, nada é definitivo. O ser humano é um ser em formação.

Os perfeccionistas e puritanos não são os conselheiros que Deus quer ('Queres que arranquemos o joio?' O dono respondeu: 'Não..”) porque na vida há bons e maus que, a qualquer momento, podem mudar de lado. A Igreja não é uma comunidade dos que “estão salvos”, mas a comunidade onde podemos salvar-nos e, por isso, ela não está fechada para ninguém.

O ponto central da parábola não está na presença do joio nem no fato de que, mais tarde, o joio será separado do trigo. O centro
de tudo está em perceber que o joio não deve ser arrancado agora
, porque “pode acontecer que, arrancando o joio, vocês arranquem também o trigo”. Esta é a política de Deus. Ele tem paciência infinita para esperar e dá um voto de confiança ao ser humano, que é a obra prima da sua criação.

Esta é uma parábola bem atual. Com frequência observamos atitudes que defendem o pensamento único. Ninguém pode pensar de forma diferente à dos que mandam. Eles decidem o que é “trigo” e o que é “joio”… e tentam arrancar de raiz tudo aquilo que consideram “joio” (sempre tendo em conta os seus interesses). É a tentação de achar-se donos da verdade, pretendendo ter o poder e o dever de decidir entre o bem e o mal, usurpando o lugar de Deus e achando-se em condições de tomar decisões definitivas. É a pretensão que está no fundo de todos os fanatismos.

As outras duas parábolas do evangelho deste domingo são muito semelhantes, tanto no conteúdo quanto na forma. Nas duas sublinha-se a desproporção entre o início e o resultado final.

O grão de mostarda é uma semente muito pequena, que, no entanto, pode dar origem a um arbusto de razoáveis dimensões. Jesus compara o “Reino” com ele para mostrar a grandeza do que é pequeno, mas cheio de energia. Na imagem do Reino que Ele oferece contrasta seu inicio pequeno com as possibilidades e a força que o fará desabrochar a pesar da sua aparência. É um convite a trabalhar pelo Reino com esperança,mas evitando o triunfalismo.

O fermento na massa apresenta um aspecto insignificante, mas tem a capacidade de transformar. É um bom modelo para os cristãos de todos os tempos. Representa a ação invisível do que não vemos. Não só tem força em si mesmo, mas influí em tudo ao seu redor. Não é só crescimento, é também transformação. O que parecia inerte se torna vivo, o insípido adquire sabor. Acolher o fermento em nossa vida é aceitar uma transformação que nos faça ser alimento e serviço. É ter capacidade e simplicidade para transformar a convivência humana de dentro para fora, desaparecendo na massa, para que tudo fermente.

Estas duas comparações servem para apresentar o dinamismo do “Reino”. O “Reino” anunciado por Jesus compara-se ao grão de mostarda e ao fermento na massa: parece algo insignificante, mas contém potencialidades para encher o mundo, transformá-lo e renová-lo.

Todos nós já tivemos a oportunidade de observar a presença simultânea do bem e do mal. Resulta complicado distinguir um do outro porque trigo e joio (na vida como na roça) crescem misturados de tal forma que, arrancando um, pode-se arrancar o outro também. Pior ainda quando estão brotando. Aí não tem como distinguir um do outro. Isso significa que é preciso suportar o crescimento do joio e tolerar a presença do mal. O mal passa a ser como um "mal necessário".

A verdade é que, na vida prática, não existe gente totalmente boa nem gente totalmente má. Todos temos um pouco de cada lado. Não há como separar o trigo do joio nem os bons dos maus em dois compartimentos separados. A fronteira entre o bem e o mal passa pelo coração de cada ser humano. Todos somos trigo e joio. Por isso ninguém pode rejeitar totalmente o outro irmão.

Porque rejeitaria o joio, mas também o trigo que há nele. O jeito é fazer crescer o trigo até que sufoque o joio e não ao contrário.
Nem na Igreja tudo é trigo, nem fora da Igreja tudo é joio. A fronteira entre o trigo e o joio passa também pelo coração da comunidade cristã. Poderíamos querer limpar o joio do mundo e da Igreja, impondo nossos critérios, mas seria um erro esquecer que detrás desse joio tem trigo também. Mais ainda, se esquecermos que, misturado ao “trigo” dos nossos critérios, pode ter “joio” difícil de perceber.

A parábola nos diz que acreditar no Reino de Deus exige de nós a virtude da tolerância porque não é a nós que cabe julgar. Deus é o dono do campo e é Ele quem vai julgar com justiça quando Ele decidir que está na hora da colheita. Cabe a nós apenas conviver com a desigualdade, exercitando a compreensão, a tolerância, a paz, sem condenar ninguém, sem desprezar ninguém, reconhecendo humildemente o joio que brota, também, em nosso coração.

Não há nada mais útil para aprender a tolerância do que isto; porque é tomando consciência dos nossos próprios erros que podemos compreender os erros dos outros e perceber que os problemas que eles nos dão, não são maiores do que os problemas que nós damos aos outros. Sto. Agostinho o descreve assim: “Tolera os outros, pois os outros também tem que tolerar você. Se foste sempre bom, tem misericórdia; se alguma vez foste mau, não te esqueças disso... É preciso, por tanto, tolerar o joio em meio ao trigo”.

+ A Palavra de Deus que meditamos, apresenta-nos um Deus tolerante e justo, em quem a bondade e a misericórdia se sobrepõem à vontade de castigar. Ele não quer a destruição do pecador, mas a sua conversão; Ele ama todos os homens que criou, mesmo aqueles que praticam ações erradas. Será que já interiorizamos essa imagem de Deus? Se assim for, a lógica do amor e da misericórdia tem que transparecer em gestos concretos para com os nossos irmãos. Qual a nossa atitude para com aqueles que nos fizeram mal, ou cujos comportamentos nos desafiam e incomodam? Faz sentido catalogar os homens em bons e maus e defendermos uma justiça implacável para com aqueles que praticam ações erradas?

+ A tolerância é também humildade na medida em que nasce do respeito aos outros e da aceitação deles do jeito que eles são. É assim como pode se construir uma convivência que não seja mera coexistência entre seres humanos (o que seria deveras frustrante). Respeitar o outro, porém, não tem nada a ver com indiferença ou desinteresse. O respeito deve ser alimentado pela convivência para que as nossas diferenças possam ser confrontadas e, juntos, chegarmos a um consenso, um acordo, uma conclusão.

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centro de promoÇÃO VOCACIONAL - osa
2º ENCONTRO VOCACIONAL AGOSTINIANO NACIONAL -
22, 23 e 24 de setembro de 2017 EM sÃo paulo (SP)

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