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HOMILIA
eSCRITA POR Pe. C.Madrigal, o.s.a.- ciriacomadrigal@gmail.com

DIA 24 DE MARÇO DE 2019

Neste terceiro domingo da Quaresma, a liturgia da Igreja nos propõe uma reflexão sobre os frutos da nossa vida como discípulos de Jesus, falando-nos do mistério de um Deus que se mostra compassivo e desejoso de libertar o seu povo (1ª leitura). Mas esta vontade de Deus não nos dispensa de aprender as lições que a história nos dá, nem da humildade necessária para pensar que ainda não estamos salvos (2ª leitura), pois podemos estar plantados na vinha do Senhor (sua Igreja) sem dar os frutos de conversão que Ele espera de nós (evangelho). Fazer parte do Povo de Deus só porque fomos batizados, mas sem assumir um compromisso de coerência entre aquilo que cremos e o que vivemos, de nada serve.

1ª Leitura: Êxodo 3, 1-8a.13-15

1 Moisés estava pastoreando o rebanho do seu sogro Jetro, sacerdote de Madiã. Levou as ovelhas além do deserto e chegou ao Horeb, a montanha de Deus. 2 O anjo de Javé apareceu a Moisés numa chama de fogo do meio de uma sarça. Moisés prestou atenção: a sarça ardia no fogo, mas não se consumia. 3 Então Moisés pensou: «Vou chegar mais perto e ver essa coisa estranha: por que será que a sarça não se consome?» 4 Javé viu Moisés que se aproximava para olhar. E do meio da sarça Deus o chamou: «Moisés, Moisés!» Ele respondeu: «Aqui estou». 5 Deus disse: «Não se aproxime. Tire as sandálias dos pés, porque o lugar onde você está pisando é um lugar sagrado». 6 E continuou: «Eu sou o Deus de seus antepassados, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac, o Deus de Jacó». Então Moisés cobriu o rosto, pois tinha medo de olhar para Deus. 7 Javé disse: «Eu vi muito bem a miséria do meu povo que está no Egito. Ouvi o seu clamor contra seus opressores, e conheço os seus sofrimentos. 8 Por isso, desci para libertá-lo do poder dos egípcios e para fazê-lo subir dessa terra para uma terra fértil e espaçosa, terra onde corre leite e mel,..................13 Moisés replicou a Deus: «Quando eu me dirigir aos filhos de Israel, eu direi: 'O Deus dos antepassados de vocês me enviou até vocês'; e se eles me perguntarem: 'Qual é o nome dele?' O que é que eu vou responder?» 14 Deus disse a Moisés: «Eu sou aquele que sou». E continuou: «Você falará assim aos filhos de Israel: 'Eu Sou me enviou até vocês' «. 15 Deus disse ainda a Moisés: «Você falará assim aos filhos de Israel: 'Javé, o Deus dos antepassados de vocês, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac, o Deus de Jacó, foi quem me enviou até vocês'. Esse é o meu nome para sempre, e assim eu serei lembrado de geração em geração».

A experiência da presença de Deus é sempre um mistério. Este mistério se manifesta a Moisés na figura de uma sarça que “ardia no fogo, mas não se consumia”; como energia vital que se transmite a todas as coisas. Quando Moisés pergunta a Deus pelo seu nome, a resposta («Eu sou aquele que sou») indica que Deus não tem um antes de um depois, não recebe a existência de ninguém; é a fonte da vida e todos os seres existem em função e na dependência d’Ele. Na verdade, o único nome que define quem Deus é, é este: ‘Eu Sou’. Porque Ele existe por si só enquanto nós existimos na medida em que recebemos a existência d’Ele.

O mais importante, porém, é que além de ser “o Deus de Abraão, o Deus de Isaac, o Deus de Jacó”, Ele se apresenta dizendo: “Eu vi... a miséria do meu povo... o seu clamor contra seus opressores... Por isso, desci para libertá-lo do poder dos egípcios e para fazê-lo subir... para uma terra... onde corre leite e mel”. Esta idéia de um Deus aliado do povo oprimido é que pode despertar a consciência adormecida do nosso povo latino-americano, pobre e oprimido também, para procurar uma vida plena, construindo uma sociedade fraterna na qual possa se esperar que corra o “leite e mel” da justiça social.

Onde houver pobres trabalhando para se libertar da miséria, da ignorância, da doença, das estruturas injustas; marginalizados lutando pelo direito à integração plena na sociedade; operários defendendo seus direitos e seu trabalho; mulheres defendendo sua dignidade; estudantes exigindo um sistema de ensino que os prepare para desempenhar um papel válido na sociedade, aí está Deus (o mesmo Deus de Moisés que vê “a miséria do (seu) povo...(e ouve) seu clamor contra seus opressores). Ele não fica de braços cruzados diante das injustiças.

A ação divina, porém, sempre se realiza através da mediação humana. Assim como Moisés teve que colocar-se a disposição de Deus e superar o medo de ser incapaz e sem autoridade para mediar na libertação de seu povo, nós também devemos participar na construção de uma sociedade justa e fraterna sem medo de ser mal interpretados e com a certeza de que o Senhor vai cumprir a sua promessa.


2ª Leitura: 1Corintios 10, 1-6.10-12

1 Irmãos, não quero que vocês ignorem uma coisa: todos os nossos antepassados estiveram sob a nuvem; todos atravessaram o mar 2 e, na nuvem e no mar, todos receberam um batismo que os ligava a Moisés. 3 Todos comeram o mesmo alimento espiritual, 4 e todos beberam a mesma bebida espiritual, pois bebiam de uma rocha espiritual que os acompanhava; e essa rocha era Cristo. 5 Apesar disso, a maioria deles não agradou a Deus, e caíram mortos no deserto. 6 Ora, esses fatos aconteceram como exemplo para nós, para que não cobicemos coisas más, como eles cobiçaram. 10 Não murmurem, como alguns deles murmuraram, e pereceram em mãos do anjo exterminador. 11 Tais coisas aconteceram a eles como exemplo, e foram escritas para nossa instrução, a nós que vivemos no fim dos tempos. 12 Portanto, aquele que julga estar em pé, tome cuidado para não cair.

Paulo tenta tirar lições das falhas do povo de Israel durante o êxodo em direção à Terra Prometida, mostrando as consequências e interpretando que “tais coisas aconteceram a eles como exemplo, e foram escritas para nossa instrução” de forma que a história daquele povo sirva de advertência para nós, cristãos, a fim de nos mantermos fiéis a Deus no tempo presente.

Mostrando a ligação profunda que existe entre a Igreja de Cristo e o Povo de Israel, ele explica que, assim como os “nossos antepassados”, podemos ter vivido sob a proteção de Deus (“sob a nuvem”), podemos ter recebido o Batismo (“todos receberam um batismo”), podemos ter sido alimentados pela Eucaristia (“comeram o mesmo alimento espiritual e beberam a mesma bebida espiritual”), mas nada disso terá adiantado se a nossa forma de vida não for do agrado de Deus.

A conclusão é obvia: hoje existem seguros para quase tudo que é coisa..., mas não existe seguro para a salvação. Por isso “aquele que julga estar em pé, tome cuidado para não cair”. A presunção de achar-nos “bons católicos” diminui a nossa autocrítica, abala a nossa sinceridade e enfraquece as nossas defesas conta o mal. Quanto mais alto a gente pensa estar, o tombo pode ser maior. Prudência e humildade nunca são demais.


Evangelho: Lucas 13, 1-9

1 Nesse tempo, chegaram algumas pessoas levando notícias a Jesus sobre os galileus que Pilatos tinha matado, enquanto ofereciam sacrifícios. 2 Jesus respondeu-lhes: «Pensam vocês que esses galileus, por terem sofrido tal sorte, eram mais pecadores do que todos os outros galileus? 3 De modo algum, lhes digo eu. E se vocês não se converterem, vão morrer todos do mesmo modo. 4 E aqueles dezoito que morreram quando a torre de Siloé caiu em cima deles? Pensam vocês que eram mais culpados do que todos os outros moradores de Jerusalém? 5 De modo algum, lhes digo eu. E se vocês não se converterem, vão morrer todos do mesmo modo.» 6 Então Jesus contou esta parábola: «Certo homem tinha uma figueira plantada no meio da vinha. Foi até ela procurar figos, e não encontrou. 7 Então disse ao agricultor: 'Olhe! Hoje faz três anos que venho buscar figos nesta figueira, e não encontro nada! Corte-a. Ela só fica aí esgotando a terra'. 8 Mas o agricultor respondeu: 'Senhor, deixa a figueira ainda este ano. Vou cavar em volta dela e pôr adubo. 9 Quem sabe, no futuro ela dará fruto! Se não der, então a cortarás'.»

Comentando a notícia de dois desastres acontecidos na época: um pela tirania de Pilatos (“os galileus que Pilatos tinha matado, enquanto ofereciam sacrifícios), outro por circunstâncias imprevistas (“dezoito... morreram quando a torre de Siloé caiu em cima deles”), Jesus aproveita para lembrar a fragilidade da vida humana e mostrar que os males não acontecem por um castigo de Deus, como alguns acreditavam (“pensam vocês que... eram mais pecadores do que... os outros?). Na verdade, são oportunidades para pensar no imprevisível da vida e na urgência da conversão.

A frase enigmática repetida por Jesus («se vocês não se converterem, vão morrer todos do mesmo modo») significa que é necessário mudar o nosso estilo de vida. Se não criarmos espaços onde possa se viver conforme os valores do Reino de Deus, a voracidade do capitalismo, que favorece o lucro sem freio e sem ética, pode nos engolir e tornar-nos menos humanos. É preciso converter-se para uma vida autenticamente fraterna e evitar cair no individualismo que nos faz o outro, não como um irmão, mas como um rival a ser eliminado. Não é possível seguir Jesus sem procurar viver uma maior fidelidade a Ele e sem estar abertos a uma mudança de vida com os irmãos. Converter-se é entrar em nosso interior para transformar-nos de modo que sejamos capazes de ver a vida de outra forma. É mudar de mentalidade e de atitudes negativas para não acabarmos mal: sem vida e sem esperança.

No entanto, é bom saber que Deus não se apressa em castigar, enviando desgraças, justamente porque ama as pessoas por si mesmas e confia nelas. O único castigo seria perder a oportunidade de conversão por não percebermos a mensagem que os “sinais dos tempos” trazem para nós. Nesse sentido Jesus propõe o contrário à opinião comum daquele povo (“Pensam vocês... De modo algum, lhes digo eu”) e acrescenta a parábola da figueira (Deus está sempre disposto a dar-nos uma nova chance).

O diálogo entre o proprietário da terra e o agricultor é muito significativo. O proprietário se interessa só pelos frutos que possa colher; se a figueira não produz é melhor cortá-la, pois “ela só fica aí esgotando a terra”. Para o agricultor, porém, interessa mais a árvore que os frutos (cuidando melhor dela, “quem sabe, no futuro ela dará fruto!”).

São duas imagens contraditórias. A primeira imagem corresponde a um Deus exigente e castigador que cobra resultados, próprio do Antigo Testamento. A segunda imagem se refere ao “Deus-Pai” revelado por Jesus, clemente e compassivo, que se importa com seus filhos e sempre está disposto a investir neles porque sabe que têm tudo para dar certo. Não se cansa de esperar porque nós somos mais importantes para Ele do que os frutos que possamos dar.

O amor e a misericórdia de Deus se revela, justamente, no tempo que o agricultor pede em favor da figueira para “cavar em volta dela e pôr adubo”. É uma oportunidade a mais, porque uma vida que se conforma com trabalhar, comprar, conseguir uma vida confortável, gozar de alguns prazeres e continuar na mesma rotina é uma vida estéril. Não ter a coragem de olhar o sofrimento dos nossos irmãos e nada fazer para alivia-lo, é una vida vazia. Não animar-se a curar os corações feridos, consolar ou infundir esperança ao nosso redor, é uma vida sem sentido. Ficarmos acomodados e não participar na construção de um mundo mais justo e fraterno, é uma vida que não dá fruto.

O agricultor que cuida da figueira não exige o fruto que esta não pode dar. Não pede o impossível. Mesmo não encontrando os frutos esperados, mostra-se paciente. Deus está sempre disposto a dar uma nova oportunidade e continua confiando no ser humano que Ele criara, esperando que dê frutos de amor, bondade, justiça, solidariedade...

A aparente ameaça de cortar a figueira estéril não é bem uma ameaça, mas um forte apelo a uma mudança de vida. Deus quer ver-nos crescer e dar o melhor de nós mesmos fugindo do medo ao risco, do costume, da superficialidade e da preguiça que só geram mediocridade.

Como estamos aproveitando este tempo da Quaresma para decidir-nos de uma vez por todas a dar de nós os melhores frutos? São perguntas que podemos e devemos responder em vista de uma nova vida transformada e fecunda.

Jesus se compromete conosco no processo de conversão. O amor semeia e espera, ajuda e espera, ensina e espera, confia e espera. O amor compromete e se compromete. O amor incondicional e gratuito de Deus sempre oferece uma nova oportunidade e espera uma resposta positiva da pessoa amada. Jesus nos acompanha com paciência e dedicação a pesar das dificuldades que formos encontrando. Insiste em dizer e mostrar que o nosso Deus é um Deus de amor, não de castigo.

Sabemos que Deus nos fala através da Bíblia pela Palavra revelada. Mas também nos fala através dos acontecimentos sejam bons ou ruins, previsíveis ou inesperados. Por vezes nos convida a louvá-lo; outras à conversão.

Converter-se é “voltar-se” para Deus, mas também é conhecer-nos a nós mesmos, sentir nossas limitações, assumir que o nosso referencial só pode ser Deus e encontrar um modo de agir de acordo com a sua vontade para conseguirmos chegar à plenitude como seres humanos. Não converter-se é “morrer”, é perder o sentido da vida.

Toda mudança, porém, é difícil. Custa-nos mudar de vida mesmo quando percebemos que algo não é bom para nós. Parece que não conseguimos abandonar certos hábitos e pecados perniciosos aos quais nos acostumamos. Muitas vezes desanimamos diante do esforço que precisamos fazer para livrar-nos de tantas coisas erradas que, aliás, são muito atraentes, mesmo que nos façam mal.

Na parábola da figueira sem frutos Jesus dá a entender a necessidade da nossa conversão para dar frutos verdadeiros. O agricultor que intercede diante do proprietário em favor da figueira estéril pode ser Jesus, nosso intercessor diante do Pai, ou aquele que cuida e se responsabiliza pelo seu irmão. O importante é saber que contamos com alguém a nosso favor para pedir mais um prazo, cavar e adubar à nossa volta. Deus, conhecedor das nossas limitações, fraquezas e dificuldades, certamente vai nos dar mais essa chance que nos impulsione e nos dê a oportunidade de sentir que o nosso esforço vale a pena e que podemos dar os frutos que o Senhor espera de nós.

Não tenhamos medo do que exige de cada um de nós este chamado à conversão. Converter-se é não ficar estéreis, é libertar-se do mal que há em nós para dar frutos de amor, de justiça, de verdade e de fé. É o que Deus espera de nós e é claro que não podemos decepcioná-Lo!

+ Vivemos numa sociedade chamada de “cristã”, mas os frutos desta “figueira” muitas vezes são de fome, desemprego, analfabetismo, falta atendimento à saúde, falta de moradia, insegurança e falta de esperança... Se for "pelos frutos que se conhece a árvore", hoje muitas sociedades ditas “cristãs” continuam vivendo bem longe do amor e da justiça que o Evangelho nos pede. Verdadeiros frutos não tem!

 

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