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HOMILIA
eSCRITA POR Pe. C.Madrigal, o.s.a.- ciriacomadrigal@gmail.com

DIA 23 DE ABRIL DE 2017

Neste Domingo, a Liturgia da Palavra fala-nos da fé. A fé dos primeiros cristãos que os levou a viver uma experiência comunitária toda especial (1ª leitura); a fé que Cristo cobra de Tomé como demonstração de confiança, graças à qual não precisamos ver para crer (evangelho); e a fé que Pedro aconselha aos primeiros cristãos (2ª leitura) como única forma de conseguir perseverar nas provações e manter viva a esperança.

O encontro com Jesus ressuscitado é um presente do Senhor aos discípulos. É Ele quem toma a iniciativa e os obriga a sair do seu medo e incredulidade. Repetidamente brota dos seus lábios esta saudação: “A paz esteja convosco”. O Ressuscitado lhes transfere a paz e a benção. Ele continua sendo o mesmo. Essa era a paz que Ele infundia quando caminhava pela Galileia. Este é agora o dom que Deus oferece a todos os seus filhos e filhas por meio de Cristo, morto e ressuscitado: o perdão, a paz e a Vida Nova.

1ª Leitura: Atos dos Apóstolos 2, 42-47

42 Eram perseverantes em ouvir o ensinamento dos apóstolos, na comunhão fraterna, no partir do pão e nas orações. 43 Em todos eles havia temor, por causa dos numerosos prodígios e sinais que os apóstolos realizavam. 44 Todos os que abraçaram a fé eram unidos e colocavam em comum todas as coisas; 45 vendiam suas propriedades e seus bens e repartiam o dinheiro entre todos, conforme a necessidade de cada um. 46 Diariamente, todos juntos frequentavam o Templo e nas casas partiam o pão, tomando alimento com alegria e simplicidade de coração. 47 Louvavam a Deus e eram estimados por todo o povo. E a cada dia o Senhor acrescentava à comunidade outras pessoas que iam aceitando a salvação.

Lucas apresenta o retrato da comunidade cristã ideal. Ela tem que ser uma comunidade que nasce “na comunhão fraterna”; cresce graças à formação, à catequese e à perseverança no “ensinamento dos apóstolos” e se espalha pelo do testemunho (“outras pessoas... iam aceitando a salvação”). O alimento que mantém a comunidade unida é a oração e a união com Deus (“juntos frequentavam o Templo”), especialmente na celebração da Eucaristia (“partiam o pão”). Na vida prática, a conversão a esta forma de vida se exprimia por um novo modo de relacionamento no qual a fraternidade superava a tendência inata nas pessoas à opressão e ao poder; os bens eram colocados “em comum” e isto se tornava um sinal tão forte que provocava a adesão de “outras pessoas... aceitando a salvação”. Para Lucas, a vida dessa comunidade mostra o ideal da Igreja e o projeto de uma nova sociedade.

Por suposto que, na construção deste ideal, falhas e tropeços existiram e existem em nossos dias, mas nem por isso deve julgar-se impossível chegar a construir uma comunidade e uma sociedade igualitária e justa. Mais ainda tendo a certeza de que tudo isto faz parte do projeto de Deus, pelo qual Cristo entregou a sua vida a fim de que os seus seguidores assumam o compromisso de participar na construção de um mundo novo. Ele estará ao nosso lado respaldando-nos e acompanhando-nos a todo o momento.


2ª Leitura: 1Pedro 1, 3-9

3 Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo por sua grande misericórdia. Ressuscitando a Jesus Cristo dos mortos, ele nos fez renascer para uma esperança viva, 4 para uma herança que não se corrompe, não se mancha e não murcha. Essa herança está reservada no céu para vocês 5 que, graças à fé, estão guardados pela força de Deus para a salvação que está prestes a revelar-se no final dos tempos. 6 Por isso, vocês devem alegrar-se, mesmo que agora, se necessário, fiquem tristes por um pouco de tempo, devido às várias provações. 7 Desse modo, a fé que vocês têm será provada como o ouro que passa pelo fogo. O ouro vai desaparecer, mas a fé que vocês têm, e que vale muito mais, não se perderá, até o dia da revelação de Jesus Cristo. Então, por essa fé, vocês receberão louvor, glória e honra. 8 Vocês nunca viram Jesus e, apesar disso, o amam; não o vêem, mas acreditam. E por isso sentem alegria extraordinária e gloriosa, 9 porque alcançam a meta da fé, que é a salvação de vocês.

O texto da segunda leitura proclama, de forma especial, a Ressurreição de Jesus. Ela fundamenta a "esperança" cristã, pois a Ressurreição é o acontecimento que torna possível a vitória sobre a morte e a superação das dificuldades que acontecem na vida dos que aceitaram seguir Jesus Cristo.

Para animar os cristãos, que viviam perseguidos, o autor da carta explica que o novo nascimento, que acontece pelo batismo, nos leva a participar na vida de Jesus Ressuscitado. Este nascimento para uma vida nova, infunde nos cristãos uma esperança muito superior a qualquer outro ideal humano. A “herança que não se corrompe” é a participação na própria vida de Deus, a vida plena que um dia há de se manifestar.

A fé é um compromisso permanente com Cristo. Mesmo para os que “nunca viram Jesus..., apesar disso, o amam; não o veem, mas acreditam” n'Ele. Mas assim como Cristo chegou à glória da ressurreição e da vida através de perseguições e sofrimentos, nós devemos estar conscientes de que o nosso testemunho muitas vezes terá que ser dado em meio às provações para alcançar “a meta da fé, que é a salvação”. Isto serve para os cristãos de todos os tempos.


Evangelho: João 20, 19-31

19 Era o primeiro dia da semana. Ao anoitecer desse dia, estando fechadas as portas do lugar onde se achavam os discípulos por medo das autoridades dos judeus, Jesus entrou. Ficou no meio deles e disse: «A paz esteja com vocês.» 20 Dizendo isso, mostrou-lhes as mãos e o lado. Então os discípulos ficaram contentes por ver o Senhor. 21 Jesus disse de novo para eles: «A paz esteja com vocês. Assim como o Pai me enviou, eu também envio vocês.» 22 Tendo falado isso, Jesus soprou sobre eles, dizendo: «Recebam o Espírito Santo. 23 Os pecados daqueles que vocês perdoarem, serão perdoados. Os pecados daqueles que vocês não perdoarem, não serão perdoados.» 24 Tomé, chamado Gêmeo, que era um dos Doze, não estava com eles quando Jesus veio. 25 Os outros discípulos disseram para ele: «Nós vimos o Senhor.» Tomé disse: «Se eu não vir a marca dos pregos nas mãos de Jesus, se eu não colocar o meu dedo na marca dos pregos, e se eu não colocar a minha mão no lado dele, eu não acreditarei.» 26 Uma semana depois, os discípulos estavam reunidos de novo. Dessa vez, Tomé estava com eles. Estando fechadas as portas, Jesus entrou. Ficou no meio deles e disse: «A paz esteja com vocês.» 27 Depois disse a Tomé: «Estenda aqui o seu dedo e veja as minhas mãos. Estenda a sua mão e toque o meu lado. Não seja incrédulo, mas tenha fé.» 28 Tomé respondeu a Jesus: «Meu Senhor e meu Deus!» 29 Jesus disse: «Você acreditou porque viu? Felizes os que acreditaram sem ter visto.» 30 Jesus realizou diante dos discípulos muitos outros sinais que não estão escritos neste livro. 31 Estes sinais foram escritos para que vocês acreditem que Jesus é o Messias, o Filho de Deus. E para que, acreditando, vocês tenham a vida em seu nome.

Nos relatos do Evangelho neste Tempo Pascal, aparece Jesus em meio aos discípulos, mostrando-lhes as mãos e os pés. Com isto, não se pretende oferecer uma prova de que o corpo humano de Jesus ressuscitado permanece exatamente o mesmo que antes de morrer. O uso desta imagem quer mostrar que a fé na presença de Jesus no meio de nós não é uma fantasia, mas que Ele continua Vivo e que o seu ser não foi destruído pela morte. Seu atual modo de vida glorioso está em plena harmonia com o que teve antes de morrer. A sua vida não é mais uma vida física, mas ela é plenamente real.

O evangelho de hoje, fala-nos de duas aparições de Jesus Ressuscitado aos discípulos. Na primeira, o Senhor rompe todos os obstáculos para comunicar-se com eles. Tanto os obstáculos materiais (“estando fechadas as portas”) quanto os psicológicos(“medo das autoridades dos judeus”) e os espirituais, pela dificuldade em crer na sua ressurreição (“mostrou-lhes as mãos e o lado... os discípulos ficaram contentes por ver o Senhor”). Era necessário este encontro pessoal com o Ressuscitado antes que fossem enviados a participar da mesma missão que trouxe o Senhor (“assim como o Pai me enviou, eu também envio vocês”). Uma missão de reconciliação da humanidade toda com Deus para tornar-se efetiva a redenção realizada na cruz e confirmada pela ressurreição do Senhor (“os pecados daqueles que vocês perdoarem, serão perdoados”). Nesta missão de reconciliação, eles serão os instrumentos de Deus. Por isso lhes diz: «Recebam o Espírito Santo. Os pecados daqueles que vocês perdoarem, serão perdoados». Este é o fruto mais importante da Páscoa.

Na segunda aparição, Ele vem para confirmar a fé não só de Tomé, mas de todos aqueles que, ao longo da história, serão felizes porque “acreditaram sem ter visto” e farão parte da comunidade cristã, que é a Igreja.

Tomé era aquele que disse estar pronto para acompanhar Jesus até a morte (João 11,16). Agora, porém, se resiste a crer no testemunho dos outros discípulos. Não lhe basta ver a comunidade transformada pelo Espírito recebido. Ele não consegue aceitar que Aquele que eles dizem ter visto seja o mesmo que morreu na cruz. Exige uma prova individual e extraordinária («Se eu não vir a marca dos pregos nas mãos de Jesus, se eu não colocar o meu dedo na marca dos pregos, e se eu não colocar a minha mão no lado dele, eu não acreditarei.»). Não está preparado para buscar Jesus ressuscitado e glorioso; ele ainda quer o mesmo Jesus físico e material do passado. A incredulidade de Tomé é a atitude daqueles que caminham por conta própria, fora da Igreja, sem aceitar o testemunho da comunidade de fé e, ainda, tem a ousadia de exigir provas para crer.

A fé, porém, não precisa de provas. Comprovar “a marca dos pregos... e .. colocar a ... mão no lado dele” é apenas constatar um fato. Não é acreditar. A fé se alimenta da confiança em Deus. Por isso são “felizes os que acreditaram sem ter visto”, diz o Senhor. O conselho de Sto. Agostinho vem a calhar: “Entenda, para crer” (usando a inteligência para aproximar-se dos mistérios da fé) mas “Acredite para entender” (apoiando-se na fé para aguçar o entendimento). O estudo da teologia leva-nos até os limites da nossa capacidade intelectual na compreensão das coisas de Deus e nos prepara para dar o passo final, expressado por Tomé naquelas palavras: «Meu Senhor e meu Deus!». Aceitar a Ressurreição do Senhor e a sua presença viva no meio de nós é uma questão de fé, sabendo que, após a Ressurreição, Cristo não tem outro corpo a não ser o dos cristãos, nem outro coração a não ser o nosso para agir e amar.

O evangelho de hoje mostra-nos que a ressurreição do Senhor não foi algo fácil de compreender para os discípulos. A pesar de Pedro e João terem comprovado que Jesus “não estava” no sepulcro e Maria Madalena ter-lhes anunciado que Jesus estava vivo e que tinha falado com Ele (João 20, 1-18), os discípulos continuavam reclusos (“estando fechadas as portas do lugar onde se achavam”) e assim continuavam “uma semana depois”. Isso indica que tiveram que passar por um processo de maturação da fé.

Por duas vezes Jesus atravessou as portas fechadas. Na segunda vez, se aproximou de Tomé com amor e compreensão. É a mesma atitude que tem conosco. Acompanha a nossa busca e, quando duvidamos, está mais perto de nós do que pensamos. Foi assim que do mais “incrédulo” dos apóstolos brotou uma grande confissão de fé («Meu Senhor e meu Deus!») e da dúvida dele surgiu, como um presente, a última bem-aventurança de Jesus («Felizes os que acreditaram sem ter visto»).

Tomara que as pessoas que não "veem" Jesus possam descobri-lo mediante o testemunho dos que nos consideramos seus discípulos. Se o testemunho for de união, justiça, acolhida, alegria, abertura, solidariedade, coragem, compaixão, austeridade, serviço, entusiasmo, paz, sinceridade... se o testemunho for realmente evangélico, certamente não haverá necessidade de milagres nem de aparições para crer em Jesus.

Tomara que saibamosdescobrir as novas chagas de Jesus pelo mundo afora, que o reconheçamos nelas e não nos limitemos a comprovar e lamentar que elas existam; que ponhamos todo nosso empenho em aliviá-las, curá-las e impedir que se reproduzam. É Jesus que nos convida a ser o bálsamo para curar as suas chagas em tantas pessoas feridas no corpo e na alma. Só assim seremos testemunhas da ressurreição. Poderemos dizer que “vimos”  o Senhor em nossos irmãos e nos deixamos tocar por Ele.

Experimentaremos Jesus ressuscitado quando nos transformemos em pessoas ressuscitadas e resuscitadoras, sem medo, em paz, com entusiasmo e alegria, porque Jesus está no meio de nós. Como os discípulos naquele primeiro dia da semana, faremos a experiência do encontro com Jesus Ressuscitado e sentimos o poder da ressurreição, graças ao Espírito Santo que nos foi dado e nos carrega sempre para o alto.

+ Um detalhe que não podemos deixar de notar é que as duas aparições do Senhor Ressuscitado, no evangelho de hoje, acontecem no “primeiro dia da semana”, o mesmo dia em que as mulheres foram ao túmulo embalsamar o corpo de Jesus e o encontraram vazio. Dá para perceber o porquê desse dia ter ficado marcado, até hoje, como o “Dia da Ressurreição do Senhor” (em latim, “Dominicus dies”, o Dia do Senhor - ou “Domingo”, em português). É sempre nesse “Domingo”, com a comunidade reunida, que Jesus se manifesta como portador da paz. Uma paz que recebemos do Senhor Ressuscitado e que, a partir de agora, se tornará a sua saudação habitual («A paz esteja com vocês.») porque Ele nos envia a semear a paz. Quem não estiver presente na comunidade, como Tomé, vai perder a oportunidade de crescer na fé e de experimentar a paz com Deus e com os irmãos; algo que vem como consequência da ressurreição.

A celebração da Missa dominical é o momento em que esta experiência se faz possível. Reunidos em volta do altar, celebrando o memorial do Senhor, somos “Igreja", isto é, homens e mulheres reunidos para vivermos o mistério pascal e sentir-nos enviados (“como o Pai me enviou, eu também envio vocês”) a promover a reconciliação e a paz tão necessárias na sociedade e no mundo em que vivemos.

Precisamos redescobrir o Domingo como o “Dia Santo” em que celebramos a vitória de Cristo sobre o poder do mal e a nossa Salvação. Por isso a igreja o celebra de tal forma que um católico consciente nunca deixará de participar nesse dia da Santa Missa para dar graças a Deus junto com toda a comunidade cristã.

Se nos reunimos no “primeiro dia da semana”, como faziam os discípulos do Senhor, não podemos deixar de perguntar-nos como e por que nos tornamos presentes na celebração do Domingo. Por costume...? Por interesse individual...? Por necessidade de proteção...? Por obrigação...? Nada há de errado em tudo isso, certamente, mas o que não pode faltar é o sentimento de gratidão a Deus, de alegria pela Salvação, de comunhão de fé com os irmãos, de encontro com o Senhor vivo e presente no meio de nós, do qual nos alimentamos pela Eucaristia...

É isso que transmitimos aos nossos filhos? É assim que os motivamos para que se tornem assíduos participantes da celebração do Dia do Senhor? Para tudo, na vida cristã, uma boa catequese é fundamental.

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centro de promoÇÃO VOCACIONAL - osa
6º ENCONTRO VOCACIONAL AGOSTINIANO regional -
06 e 07 de maio de 2017 EM recife (pe)

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