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HOMILIA
eSCRITA POR Pe. C.Madrigal, o.s.a.- ciriacomadrigal@gmail.com

DIA 11 DE NOVEMBRO DE 2018

A Liturgia deste Domingo apresenta-nos o sentido profundo que tem o gesto de oferecer e partilhar como expressão máxima da liberdade interior a respeito dos bens materiais e da generosidade do coração.

A viúva de Sarepta (1ª leitura) ofereceu ao homem de Deus o que precisava para viver ela e seu filho. Deus correspondeu não permitindo que faltasse alimento em sua casa. O próprio Senhor Jesus Cristo se fez oferenda dando a sua vida para que a humanidade toda tivesse a verdadeira Vida (2ª leitura). Este sentido profundo de doação é o que Jesus descobre e elogia naquela viúva pobre que fez a sua oferta com generosidade (evangelho). Ela não estava dando do que lhe sobrava, mas do que precisava para viver. O gesto de dar daquilo que se precisa, além de muita fé, expressa profunda generosidade com os irmãos e, por meio deles, para com Deus. Vivendo assim, a bênção do Senhor nunca faltará.

1ª LEITURA: 1 Reis 17, 10-16

10 Elias se levantou e foi para Sarepta. Chegando à porta da cidade, encontrou uma viúva que estava recolhendo lenha. Elias a chamou e disse: «Por favor! Traga-me um pouco de água no seu balde para eu beber». 11 Quando a mulher já estava indo buscar água, Elias gritou para ela: «Traga-me também um pedaço de pão». 12 Ela respondeu: «Pela vida de Javé, o seu Deus, não tenho nenhum pão feito; tenho apenas um pouco de farinha numa vasilha e um pouco de azeite na jarra. Estou ajuntando uns gravetos para preparar esse resto para mim e meu filho. Depois, vamos comer e ficar esperando a morte». 13 Mas Elias lhe disse: «Não tenha medo! Vá e faça o que está dizendo. Mas primeiro prepare um pãozinho com o que você tem e traga para mim. Só depois você prepara um pão para você e seu filho. 14 Pois assim diz Javé, Deus de Israel: A vasilha de farinha não ficará vazia e a jarra de azeite não se esgotará, até o dia em que Javé mandar chuva sobre a terra». 15 A mulher foi fazer o que Elias tinha mandado. E comeram, tanto ele como também ela e o filho, durante muito tempo. 16 A vasilha de farinha não se esvaziou e a jarra de azeite não se esgotou, como Javé tinha anunciado por meio de Elias.

O profeta Elias estava fugindo do rei Ajab que o perseguia por reprovar o novo modo de vida que ele tinha introduzido em Israel com o novo culto ao deus Baal que havia adotado. Esta nova religião justificava o privilégio das classes dominantes em detrimento dos pobres que eram abandonados à sua sorte.

As viúvas, junto com os órfãos e os migrantes estrangeiros, sempre foram considerados na Bíblia como a expressão do povo pobre e desprotegido. No entanto, ao chegar a Sarepta, foi a uma viúva que o profeta Elias pediu água para beber e, como querendo testar o grau de generosidade dela, aumentou o seu pedido, pedindo também comida. Justo para ela que só tinha
“um pouco de farinha... e um pouco de azeite” para “comer e ficar esperando a morte”. E, por se fosse pouco o “abuso”
do profeta, Elias chegou ao extremo de pedir: “primeiro prepare um pãozinho... e traga para mim. Só depois você prepara um pão para você e seu filho”. A viúva aceitou e acreditou nas palavras do profeta; repartindo o pouco (porém, tudo) que tinha, deu nessa oferta o necessário para a própria vida. Seu gesto extraordinário teve um final feliz porque Deus correspondeu não deixando que lhe faltasse alimento em casa.

Desta forma ficou evidente que, enquanto os grandes do rei Acab olhavam para si e para mais ninguém, os “pobres de Javé” eram capazes de olhar para os outros e partilhar generosamente com aqueles que se encontravam em piores condições que eles (quem disse que “dar esmola do que sobra” é suficiente para cumprir a vontade do Pai?).

Partilhar não é “dar esmola”; é dividir o que se tem (muito ou pouco) com o que tem menos ainda que nós! Aliás, partilhar com generosidade é uma característica dos pobres. Da sua necessidade, eles encontram sempre meios de repartir solidariamente com os que têm menos do que eles. Neste sentido, podemos dizer que os pobres nos evangelizam. Eles ocupam o primeiro lugar no coração de Deus pelo seu modo solidário de agir. Acabam sendo um sinal sacramental de Deus, ao mesmo tempo que nos demonstram o quanto estamos longe do projeto de solidariedade, igualdade e amor fraterno querido pelo Pai.


2ª LEITURA: Hebreus 9, 24-28

24 De fato, Cristo não entrou num santuário feito por mãos humanas, figura do verdadeiro santuário; ele entrou no próprio céu, a fim de apresentar-se agora diante de Deus em nosso favor. 25 Ele não teve que se oferecer muitas vezes, como o sumo sacerdote que todos os anos entra no santuário com sangue que não é seu. 26 Se assim fosse, ele deveria ter sofrido muitas vezes desde a criação do mundo. Entretanto, ele se manifestou uma vez por todas no fim dos tempos, abolindo o pecado pelo sacrifício de si mesmo. 27 E dado que os homens morrem uma só vez e depois disso vem o julgamento, 28 assim, também Cristo se ofereceu uma vez por todas, para tirar o pecado de muitos. Ele aparecerá uma segunda vez, sem nenhuma relação com o pecado, para aqueles que o esperam para a salvação.

Nesta leitura, o autor da Carta aos Hebreus continua apresentando a excelência do sacerdócio de Cristo sobre o sacerdócio do Antigo Testamento. O santuário em que exerce o seu sacerdócio não é “feito por mãos humanas”, mas “no próprio céu”. Ele não oferece muitas vezes sangue dos animais imolados, “que não é seu”, mas se oferece a si mesmo “uma vez por todas..., abolindo o pecado pelo sacrifício de si mesmo”. 

O sacrifício de Cristo tem eficácia permanente. Por meio dele o pecado do mundo foi perdoado e o acesso à reconciliação com Deus ficou aberto para sempre. Mais ainda: Ele voltará, não para um novo sacrifício, mas para dar-nos a plenitude da salvação.
           
Não existe melhor forma de oferecer nossa vida a Deus do que participar deste sacrifício de Cristo na celebração Eucarística, especialmente no Ofertório (quando oferecemos nossa vida ao Pai) e na Comunhão (quando, recebendo o Corpo de Cristo e nos identificamos com Ele). Desta forma, a Missa, como sacrifício de ação de graças oferecido ao Pai, transforma nossa vida em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus (Romanos 12, 1). O ser humano se salva na medida em que, como Jesus, se entrega a Deus e ao próximo livremente, doando-se, amando, buscando a paz e a justiça. Este é o caminho para entrar em comunhão com Deus.


EVANGELHO: Marcos 12, 38-44

38 E Jesus continuava ensinando: «Tenham cuidado com os doutores da Lei. Eles gostam de andar com roupas compridas, de ser cumprimentados nas praças públicas; 39 gostam dos primeiros lugares nas sinagogas e dos lugares de honra nos banquetes. 40 No entanto, exploram as viúvas e roubam suas casas, e para disfarçar fazem longas orações. Por isso eles vão receber uma condenação mais severa.» 41 Jesus estava sentado diante do Tesouro do Templo e olhava a multidão que depositava moedas no Tesouro. Muitos ricos depositavam muito dinheiro. 42 Então, chegou uma viúva pobre, e depositou duas pequenas moedas, que valiam uns poucos centavos. 43 Então Jesus chamou os discípulos, e disse: «Eu garanto a vocês: essa viúva pobre depositou mais do que todos os outros que depositaram moedas no Tesouro. 44 Porque todos depositaram do que estava sobrando para eles. Mas a viúva na sua pobreza depositou tudo o que tinha, tudo o que possuía para viver.»

Depois da entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, e após a expulsão dos vendilhões do Templo, Jesus continua desmascarando e desautorizando os “doutores da Lei” (os profissionais da religião), tanto na doutrina quanto no comportamento ético. Avisa que convém guardar-se de cair naqueles mesmos vícios deles (ambição, hipocrisia, vaidade, busca de honrarias e de poder). Critica duramente a falsa religiosidade daqueles que, usando a religião, se aproveitam da ignorância das pessoas e, até mesmo, dos seus bens. Não suporta a sua vaidade e ostentação; buscam vestir de modo especial e ser saudados com reverência para sobressair sobre os demais, se impor e dominar. Servem-se da religião para alimentar a sua vaidade. Fazem «longas (e fingidas) orações» para impressionar, mas não formam comunidade, pois se acham superiores a todos. No fundo, só pensam em si mesmos. Vivem aproveitando-se daqueles aos quais deveriam servir.

Como os antigos profetas, denuncia o comportamento destes “doutores da Lei” que transformavam seu saber em poder, aproveitando-se disto para viver ricamente à custa dos mais pobres (“as viúvas”), explorando a religiosidade popular com a pior forma de hipocrisia. Por dizer isto, levaram Jesus à morte; mas, em forma de crítica, ouviram um forte convite à conversão.

Na verdade, Marcos não transmite as palavras de Jesus para falar dos antigos escribas do Templo de Jerusalém, mas para alertar as atuais comunidades cristãs a respeito da atitude que precisam exigir dos dirigentes religiosos (padres e leigos) como servidores da comunidade. Mais nada. Se esquecerem disso, serão um perigo para todos. É preciso evitar que o clericalismo tome conta da Igreja.

É neste contexto que o evangelista Marcos descreve a cena comovedora de “uma viúva pobre” que se aproxima do Tesouro do Templo para fazer a sua oferta. Ao contrário dos ricos que “depositavam muito dinheiro”, ela, quase com vergonha e caladamente, “depositou duas pequenas moedas”. Seu gesto não passou despercebido para Jesus que estava observando tudo. Comovido, chamou seus discípulos para ensinar-lhes algo que só se aprende das pessoas pobres e humildes: a doação verdadeira é tirar do que a gente tem, não se desfazer do que sobra. Com isto, Ele coloca a ação daquela mulher como um exemplo de fé a ser seguido por seus discípulos.

Aparentemente era muito pouco o que aquela pobre mulher dava em comparação com as grandes ofertas dos ricos, mas esse pouco falava mais de Deus que os grandes discursos dos doutores da Lei e as grandes ofertas dos ricos; porque os outros “depositaram do que estava sobrando para eles. Mas a viúva na sua pobreza depositou tudo o que... possuía para viver”.

Nossa vida tem sentido na medida em que amarmos e nos doarmos com generosidade. Dar do que sobra não é doação de verdade. A doação verdadeira leva consigo algum tipo de sacrifício. “Tem que doer!” (na expressão da Santa Madre Teresa de Calcutá). Por isso Ele disse que a “viúva pobre depositou mais do que todos os outros” pois, dando humilde e generosamente tudo o que tinha, na verdade, deu-se a si mesma.

Desta forma, fica evidente que a qualidade vale mais do que a quantidade, diante de Deus. Ele não leva em conta as ofertas pelo valor material delas, mas pela vida e generosidade que elas encerram!

As histórias das duas viúvas pobres, na Liturgia da Palavra de hoje, mostram-nos a predileção de Deus pelos fracos, pelos pobres e desfavorecidos, assim como pelos explorados e marginalizados. Será que Deus vê a história humana na perspectiva da luta de classes e escolhe um lado em detrimento do outro? É claro que não. No entanto, Deus opta preferencialmente pelos pobres porque, em primeiro lugar, eles vivem numa situação dramática de necessidade e precisam especialmente da bondade, da misericórdia e da ajuda de Deus; e, em segundo lugar, porque os pobres – sem bens materiais que os façam perder o foco do essencial – estão sempre mais atentos e disponíveis para acolher os apelos, a vontade e os dons de Deus. Os “ricos”, ao contrário, estão sempre preocupados com os seus bens, com os seus interesses egoístas, com os seus projetos e preconceitos e não têm espaço para acolher a vontade de Deus em suas vidas. Isto deve lembrar-nos da necessidade de sermos “pobres”, despojados da ambição e de tudo aquilo que possa atravancar o nosso coração e impedir-nos de acolher o que Deus quer de nós.

Por outro lado, a advertência de Jesus sobre os doutores da Lei (“cuidado com os doutores da Lei”), que viviam da religião, denuncia o perigo de toda religião estabelecida. Padres e leigos que assumimos a responsabilidade pela orientação da comunidade cristã, estamos à frente dela para servir. Precisamos evitar o perigo de cair no “clericalismo”, tornando-nos “profissionais da religião” porque isto pode nos levar a usá-la para dominar como “senhores” em lugar de agirmos como “servidores”. Jesus desaprova a procura do prestígio religioso e critica duramente quem se aproveita do conhecimento religioso e do status que este lhe confere para impor seu domínio e acomodar-se na boa vida à custa dos outros.

Em contrapartida, o Senhor nos propõe o gesto da viúva pobre. Pobre, sim,  mas muito rica em generosidade À diferença dos ricos, ela não dá o que lhe “estava sobrando” mas “tudo o que possuía para viver”. Como Jesus, essa viúva dá tudo de si. Naquelas moedas, ela entrega sua vida e sua pessoa, participando livre e responsavelmente da manutenção do Templo simplesmente porque ama a Deus e quer que a fé n’Ele esteja presente na vida através da religião que professa.

Seu gesto mostra-nos o coração da verdadeira religião: confiança em Deus, gratuidade, generosidade e amor solidário, simplicidade e verdade. Não sabemos o nome dela. Sabemos que Jesus viu nela um modelo para os futuros dirigentes da sua Igreja. Hoje também muitas pessoas de fé simples e coração generoso são o melhor que temos na Igreja. Não escrevem libros nem pronunciam sermões, mas são elas que mantém vivo entre nós o Evangelho de Jesus. Deles precisam aprender padres e bispos.

A nossa relação com Deus nunca é uma relação que possa ser medida ou computada; não se contabiliza, é algo que pode ser “valorizado” pela qualidade da doação de cada um e pela generosidade para como os outros; esta é a medida da nossa relação com Deus. Não é o muito ou o pouco que se dá nem o muito ou o pouco que se faz. É fazer tudo com sentido de doação total, sem guardar nada para si, sem duplicidade nem egoísmo escondido, sem vaidade nem procurando construir uma falsa imagem de nós mesmos. A generosidade só é verdadeira quando nada faz para ser notada.

+ A oferenda é parte integrante de qualquer culto religioso. Mas, para a oferenda não ser apenas uma esmola, precisa haver correspondência entre aquilo que se oferece e o que significa para nós. Deve ser de tal ordem que seja sinal da nossa vida oferecida em ação de graças diante do Senhor. Colocar a vida na oferenda tem a ver com generosidade e confiança em Deus.

+ Na cultura em que vivemos somos tentados a pensar que somos generosos quando oferecemos muito, embora seja daquilo que não nos irá fazer falta. No gesto de oferecer, porém, o que conta não é a quantia da oferta, mas o que eu tiro do meu conforto para doar, assim como a generosidade e o amor com que o faço e o agradecimento com que “devolvo” a Deus uma parte de tudo aquilo que Ele me deu, como a viúva! 

+ Seguindo esta reflexão, poderíamos avaliar o valor do Dízimo que oferecemos para a manutenção da igreja não pela quantia que damos, mas pelo que voluntariamente sacrificamos nessa oferta. Poderíamos analisar se, em lugar de apenas dinheiro, também estamos dando um pouco da nossa vida.

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3º ENCONTRO VOCACIONAL AGOSTINIANO NACIONAL -
23, 24 E 25 DE novembro DE 2018 EM RECIFE (PE)

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