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HOMILIA
eSCRITA POR Pe. C.Madrigal, o.s.a.- ciriacomadrigal@gmail.com

DIA 29 DE SETEMBRO DE 2019

Mais uma vez, a liturgia nos fala sobre o uso dos bens materiais fazendo-nos ver que a pobreza não é um problema que alguém tenha que resolver, e sim, um escândalo do qual todos participa­mos e que temos a obrigação de superar. A solução passa por abandonar todo egoísmo a fim de construir um mundo de irmãos.

A Palavra de Deus, neste domingo, põe o dedo na chaga da exclusão social para colocar-se claramente do lado dos excluídos, denunciando a “boa vida” dos que exploram o pobre (1ª leitura). A parábola de Jesus mostra, com impressionante clareza, uma sociedade injustamente dividida entre ricos e pobres (evangelho) e Paulo nos indica, com os conselhos dados a Timóteo, qual deve ser o comportamento ideal para uma boa convivência entre as pessoas (2ª leitura) independentemente do seu lugar social.

1ª LEITURA: Amós 6, 1a.4-7

1 Ai dos que vivem tranqüilos em Sião e se sentem seguros no monte de Samaria;..................... 4 Deitam-se em camas de marfim; esparramam-se em cima de sofás, comendo cordeiros do rebanho e novilhos cevados em estábulos; 5 cantarolam ao som da lira, inventando, como Davi, instrumentos musicais; 6 bebem canecões de vinho, usam os mais caros perfumes, sem se importar com a ruína de José! 7 Por isso, vocês irão acorrentados à frente dos exilados. Acabou-se a festa dos boas-vidas.

Amós foi o profeta mais direto e mais incisivo na denuncia da injustiça social, dizendo que os ricos o eram a custa dos pobres e assalariados, os quais não recebiam uma retribuição justa. Desta forma, agiam contra a vontade de Deus expressada na sua Aliança. Não é em nome próprio que Amós levanta a voz, nem guiado por princípios puramente econômicos; ele o faz em nome de Deus.

É assim que o profeta Amós denuncia as injustiças dos poderosos que viviam cercados de luxo numa vida de privilégios à custa do povo explorado «sem se importar com a ruína de José». Toda esta indiferença mostra a cegueira dos que se sentem seguros na impunidade. É uma chamada de atenção pessoal que nos leva a refletir sobre o tipo de atenção que estamos dando aos nossos semelhantes. Na vida social não pode faltar a solidariedade; não podemos pensar apenas em nós mesmos; não podemos fazer uso egoísta dos nossos bens. Ricos ou pobres, todos temos algo a partilhar, sejam bens materiais ou espirituais, a modo de colaboração ou, simplesmente, em forma de amizade.

A leitura é, também, um aviso do tipo político e social que nos leva a refletir sobre a nossa responsabilidade na hora de escolher os nossos governantes. Não podemos permitir que políticos corruptos se perpetuem no poder graças ao nosso voto inconsciente; não podemos perder a oportunidade de renovar a classe dos «que vivem tranqüilos em Sião» e, com o nosso voto consciente, dizer: «acabou-se a festa dos boas-vidas», colocando no lugar deles gente honesta e comprometida com o bem comum.


2ª LEITURA: 1Timóteo 6, 11-16

11 Você, porém, homem de Deus, fuja dessas coisas. Procure a justiça, a piedade, a fé, o amor, a perseverança, a mansidão. 12 Combata o bom combate da fé, conquiste a vida eterna, para a qual você foi chamado. Isso, você o reconheceu numa bela profissão de fé diante de muitas testemunhas. 13 Diante de Deus, que dá a vida a todas as coisas, e de Jesus Cristo, que deu testemunho diante de Pôncio Pilatos numa bela profissão de fé, eu ordeno a você: 14 guarde o mandamento puro, de modo irrepreensível, até a Aparição de nosso Senhor Jesus Cristo. 15 Essa Aparição mostrará, nos tempos estabelecidos, o Bendito e único Soberano, o Rei dos reis e Senhor dos senhores, 16 o único que possui a imortalidade, que habita uma luz inacessível, que nenhum homem viu, nem pode ver. A ele, honra e poder eterno. Amém!

Paulo aconselha seu discípulo Timóteo a comportar-se de forma fiel e perseverante como corresponde a um verdadeiro «homem de Deus», ou seja, a um verdadeiro pastor da comunidade eclesial. Para estabelecer sólidas relações com os homens, deverá «procurar a justiça». Para consolidar as suas relações com Deus, deverá imbuir-se de «piedade», além das três “virtudes teologais” (do grego “Theos”=Deus, porque nos unem a Deus) que são a «fé, o amor, e a perseverança ou esperança» (a perseverança é a esperança em meio às tribulações). Já a «mansidão» (a bondade) é consequência das virtudes anteriores.

Paulo exorta Timóteo a conservar o mandato do Senhor, mantendo-se firme no compromisso assumido e buscando sempre a vida de união com Deus para a qual foi chamado e na qual se comprometeu diante da comunidade cristã. Estas são as armas espirituais. Os discípulos de Cristo devemos ir com elas para «o bom combate da fé», na perspectiva de «conquistar a vida eterna» porque o que serve para Timóteo, serve para todos nós que, pelo Batismo, recebemos a missão de dar testemunho de Cristo.


EVANGELHO: Lucas 16, 19-31

19 «Havia um homem rico que se vestia de púrpura e linho fino, e dava banquete todos os dias. 20 E um pobre, chamado Lázaro, cheio de feridas, que estava caído à porta do rico. 21 Ele queria matar a fome com as sobras que caíam da mesa do rico. E ainda vinham os cachorros lamber-lhe as feridas. 22 Aconteceu que o pobre morreu, e os anjos o levaram para junto de Abraão. Morreu também o rico, e foi enterrado. 23 No inferno, em meio aos tormentos, o rico levantou os olhos, e viu de longe Abraão, com Lázaro a seu lado. 24 Então o rico gritou: 'Pai Abraão, tem piedade de mim! Manda Lázaro molhar a ponta do dedo para me refrescar a língua, porque este fogo me atormenta'. 25 Mas Abraão respondeu: 'Lembre-se, filho: você recebeu seus bens durante a vida, enquanto Lázaro recebeu males. Agora, porém, ele encontra consolo aqui, e você é atormentado. 26 Além disso, há um grande abismo entre nós: por mais que alguém desejasse, nunca poderia passar daqui para junto de vocês, nem os daí poderiam atravessar até nós'. 27 O rico insistiu: 'Pai, eu te suplico, manda Lázaro à casa de meu pai, 28 porque eu tenho cinco irmãos. Manda preveni-los, para que não acabem também eles vindo para este lugar de tormento'. 29 Mas Abraão respondeu: 'Eles têm Moisés e os profetas: que os escutem!' 30 O rico insistiu: 'Não, pai Abraão! Se um dos mortos for até eles, eles vão se converter'. 31 Mas Abraão lhe disse: 'Se eles não escutam a Moisés e aos profetas, mesmo que um dos mortos ressuscite, eles não ficarão convencidos'.»

Lucas continua transmitindo os ensinamentos de Jesus a respeito do perigo que há no uso ilusório das riquezas. Esta ilusão era o motivo pelo qual «os fariseus, que são amigos do dinheiro, ouviam tudo isso, e caçoavam de Jesus» (Lucas 16, 14). Daí que o Senhor quisesse mostrar, com esta parábola, que a arrogância dos homens é detestável para Deus. A parábola em si é uma crítica à sociedade classista, na qual o rico vive na abundância e no luxo, enquanto o pobre morre na miséria.

Jesus apresenta duas pessoas contrapostas. Por um lado, «um pobre», que só contava com certo carinho dos «cachorros» (os quais eram considerados “impuros”), que vinham «lamber-lhe as feridas» e, mesmo nesta situação, Jesus mostra que, para Ele, este homem era “alguém”, pois lhe dá o mesmo nome do seu amigo íntimo («Lázaro», que quer dizer “Deus ajuda”). Do outro lado, aparece «um homem rico» (assim mesmo, sem nome). Omitindo seu nome, Jesus parece querer mostrar que, a pesar das riquezas, aquele rico não passava de um “João-ninguém” em termos de humanidade. O isolamento e o afastamento em que vivia, criava um abismo de separação que o pobre Lázaro não conseguia transpor nem ao menos para «matar a fome com as sobras que caíam da mesa». Os dois eram frente e verso de uma realidade social injusta.

Com a morte deles, trocam-se os papeis. O abismo que havia entre ambos agora se perpetua, só que ao contrário. O pobre vai «para junto de Abraão» e, do rico, apenas se diz que «foi enterrado» (Jesus parece escolher as palavras para dar um maior dramatismo à nova situação). E é nessa situação trocada que o rico, por fim, tenta sair do isolamento pedindo a ajuda de Lázaro, a quem nunca quis ajudar em vida («Pai Abraão, tem piedade de mim! Manda Lázaro molhar a ponta do dedo para me refrescar... »). Poderia, em vida, ter se convertido da sua arrogância, indo ao encontro do pobre “caído” à sua porta, mas a riqueza torna insensível a pessoa ao ponto de não lhe permitir enxergar o pobre ao seu lado. Agora, porém, não tem mais jeito («há um grande abismo entre nós») e o tempo de merecer acabou.

Mas o rico ainda tem os irmãos. Quem sabe Lázaro poderia ir lá e «preveni-los, para que não acabem... vindo para este lugar de tormento». Não adianta. Nada os levará à conversão, se não forem capazes de abrirem o coração para a fraternidade, como ensina a Palavra de Deus, e enxergar o pobre («Eles têm Moisés e os profetas: que os escutem! »). Mas, se eles não quiserem se voltar para o pobre, quem sabe «se um dos mortos for até eles, eles vão se converter»? A resposta de Abraão é categórica: se «não escutam a Moisés e aos profetas» (isto é, a Palavra de Deus) nem com uma assombração «eles... ficarão convencidos». Lucas insiste, de um modo especial, na força, dinamismo e necessidade de escutar a Palavra de Deus. Fora disso, não tem nem milagre, nem salvação. O coração do rico, como o de qualquer pessoa, só se abre por dentro e a chave está na mão dele.... Muito forte, mas é a pura verdade!         

Na parábola do "rico epulão" não se fala de que o rico explorasse o pobre ou que o maltratasse e desprezasse. Poderíamos dizer que ele não fez mal nenhum. No entanto, sua vida era desumana por viver só para seu próprio bem-estar e, com um coração de pedra, ignorar totalmente o pobre Lázaro. Estava à sua porta e não o enxergava. Estava lá, doente, faminto e abandonado, mas não era capaz de fazer algo por ele, à diferença dos cachorros que, pelo menos, lambiam suas feridas dele.

Não pensemos que Jesus está apenas denunciando uma situação da Galileia nos anos trinta. Ele está tentando mexer com a consciência dos que já nos acostumamos a viver na abundância tendo perto de nós pessoas e povos inteiros vivendo e morrendo na miséria. Mesmo que pareça falar de um Deus que “premia os bons e castiga os maus” apenas na vida futura, a parábola é uma lição para o momento presente.

Lendo a parábola, não podemos deixar de compará-la com a realidade em que vivemos cheia de contrastes entre os que têm de tudo e os que mal conseguem sobreviver. Como justificar o esbanjamento da, assim chamada, “alta sociedade” frente à situação de exclusão social das classes desfavorecidas? Certamente, com o Evangelho na mão, não dá para desculpar-se com a ideia de que os ricos construíram sua riqueza a base de muito trabalho e os pobres é que são uns preguiçosos; por isso estão na miséria. A nossa sociedade está organizada de tal forma que, os que mais têm, sempre conseguem maiores facilidades e lucros ao passo que, os que menos têm, são os mais sacrificados.

Entre a riqueza e a pobreza há um abismo intransponível, embora ambas estejam relacionadas entre si a partir do momento em que os ricos lucram com o trabalho dos pobres e os pobres sobrevivem servindo os ricos. A mera existência da pobreza já denuncia esta desigualdade. Mas a cegueira do rico não lhe permite enxergar que ele consegue sua riqueza graças ao trabalho do pobre; está próximo dele, precisa dele, mas não o vê; sabe que existe, mas não quer saber dele. A excessiva fartura e despreocupação desumaniza o rico; torna-o cego, superficial e cruel (mesmo que seja inconscientemente), fecha-o sobre si mesmo, fazendo com que se esqueça da sua condição de homem e de irmão e se nega a partilhar. 

Não tem milagre que mude isto a não ser que a sociedade como um todo e as pessoas em particular sejam capazes, um dia, não apenas de OUVIR, mas de «ESCUTAR Moisés e os profetas» (a Palavra de Deus) de forma que os ensine a abrir as portas do bem-estar e do progresso para tantos (como «o pobre Lázaro, caído à porta») à espera de uma melhor e mais justa distribuição dos recursos que Deus criou para todos. Isto, antes que acabe o tempo de merecer ou que a paciência dos excluídos se esgote e a situação social se vire violentamente do avesso... (o que não seria bom prá ninguém!).

+ Será possível ouvir a Palavra de Deus neste Domingo sem compará-la com a nossa realidade? Será possível voltar da nossa bem comportada religiosidade para a vida real sem abalar-nos pela mensagem da Palavra de Deus neste Domingo? Está claro que o verdadeiro Deus não é amigo de uma religião que separa o culto da vida, o incenso da pratica do amor ao próximo. Este Deus está do lado de todos aqueles aos quais os poderosos lhes tiraram o direito a uma vida digna. Disto não há dúvida alguma!

+ Dado o destaque que a escuta da Palavra de Deus tem no texto evangélico de hoje quando fala de «Moisés e os profetas», não podemos esquecer que, neste quarto domingo de setembro, celebramos o Dia da Bíblia. Nunca é demais reconhecer o lugar central que a Sagrada Escritura tem para nós. Esta coleção de livros (“livros” em grego se diz “bíblia”) foi sendo escrita ao longo dos séculos como expressão da vontade do povo de ser fiel a Deus e é, até hoje, a forma privilegiada de ajudar-nos a encarnar na vida prática a espiritualidade que está na raiz vida cristã. O convite não pode ser outro: façamos dela o alimento da nossa fé e a fonte inspiradora da nossa oração (nada de usá-la apenas como enfeite na estante de nossa sala).

 

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