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HOMILIA
eSCRITA POR Pe. C.Madrigal, o.s.a.- ciriacomadrigal@gmail.com

DIA 22 DE JULHO DE 2018

A Liturgia da Palavra deste Domingo apresenta-nos, de novo, a figura bíblica do bom pastor sempre solicito em procurar a “ovelha perdida”.

Pela voz do profeta Jeremias, Deus condena os pastores que usam o “rebanho” para satisfazer seus próprios interesses e, ao mesmo tempo, anuncia que Ele mesmo vai tomar conta do seu “rebanho”, para garantir-lhe vida em abundância e salvação
(1ª leitura). É com esse amor e essa solicitude que Jesus, renunciando a seu descanso, atende o povo sedento da sua palavra (evangelho). Com a mesma solicitude, Cristo oferece a todos os homens a possibilidade de integrar-se na família de Deus de modo que não haja mais barreiras entre irmãos (2ª leitura), como filhos do mesmo Pai.

1ª LEITURA: Jeremias 23,1-6

1 Ai dos pastores que espalham e extraviam as ovelhas do meu rebanho - oráculo de Javé. 2 Por isso assim diz Javé, o Deus de Israel, contra os pastores encarregados de cuidar do meu povo: Vocês espalharam e expulsaram minhas ovelhas e não se preocuparam com elas. Pois agora sou eu que vou pedir contas a vocês pelo mal que praticaram - oráculo de Javé. 3 Eu mesmo vou reunir o que sobrou das minhas ovelhas de todas as regiões para onde eu as tinha expulsado. Vou trazê-las de volta para as suas pastagens, para que cresçam e se multipliquem. 4 Vou dar-lhes pastores que cuidem delas, e elas não terão mais medo ou susto, nem se perderão - oráculo de Javé. 5 Vejam que vão chegar dias - oráculo de Javé - em que eu farei brotar para Davi um broto justo. Ele reinará como verdadeiro rei e será sábio, pondo em prática o direito e a justiça no país. 6 Em seus dias, Judá estará a salvo e Israel viverá em paz; e a ele darão o nome de «Javé, nossa justiça».

O profeta Jeremias se refere aos reis, sacerdotes e profetas quando fala dos “pastores” para condenar a atitude deles porque, em lugar de cuidar do povo como verdadeiros pastores, “espalharam e expulsaram minhas ovelhas e não se preocuparam com elas”. Os líderes de Judá não procuraram servir o Povo, mas serviram-se do Povo em função dos seus interesses pessoais. Ora, o “rebanho” não é propriedade dos “pastores”, mas do Senhor. Deus esperava que cuidassem do seu “rebanho” e eles falharam. Por isso Ele mesmo vai cuidar agora do seu povo (suas ovelhas), colocando à frente dele verdadeiros “pastores que cuidem delas” para, no futuro, fazer “brotar... um broto justo”, portador do direito e da justiça. Será o Messias por Ele enviado.

À luz do Novo Testamento entendemos que este Messias (o Ungido do Senhor) é Jesus, descendente de Davi, que abriu para nós o caminho de uma nova vida. Ele reúne na sua Igreja o Povo de Deus disperso, a começar pelos mais fracos. Por isso será chamado «Javé (Deus), nossa justiça»;

Jesus cumpre a promessa de atender o rebanho de Deus e renova a critica aos maus pastores que colocam seus interesses pessoais acima do serviço ao Povo de Deus. Crítica sempre atual para as autoridades civis que nos governam, sem poupar os padres, bispos e ministros, além dos leigos dedicados às pastorais; pois a tarefa que o Senhor nos encomenda é grandiosa demais para não ser levada com a seriedade necessária.

De qualquer forma, este texto atinge a todos nós que, de alguma forma, somos responsáveis pelos irmãos que caminham conosco. É um convite a repensar a forma como tratamos os irmãos, na família, na Igreja, no emprego, em qualquer lugar, recordando-nos que os irmãos que caminham conosco não estão ao serviço dos nossos interesses pessoais e que a nossa função é ajudar todos a encontrar a vida e a felicidade.


2ª LEITURA: Efésios 2,13-18

13 Mas agora, em Jesus Cristo, vocês que estavam longe foram trazidos para perto, graças ao sangue de Cristo. 14 Cristo é a nossa paz. De dois povos, ele fez um só. Na sua carne derrubou o muro da separação: o ódio. 15 Aboliu a Lei dos mandamentos e preceitos. Ele quis, a partir do judeu e do pagão, criar em si mesmo um homem novo, estabelecendo a paz. 16 Quis reconciliá-los com Deus num só corpo, por meio da cruz; foi nela que Cristo matou o ódio. 17 Ele veio anunciar a paz a vocês que estavam longe, e a paz para aqueles que estavam perto. 18 Por meio de Cristo, podemos, uns e outros, apresentar-nos diante do Pai, num só Espírito.

Para o judaísmo a humanidade estava dividida em dois mundos: o mundo dos “eleitos” que, apesar de suas infidelidades, sempre seria o Povo de Deus; e o mundo dos “pagãos” que, apesar de suas boas obras, sempre estariam “longe de Deus”.

Paulo entende que a morte de Cristo derrubou o muro de separação que a Lei de Moisés colocara entre judeus e pagãos. Agora só existe um Pai para todos e uma casa comum, a comunidade de irmãos, que é a Igreja. Surge assim o novo Povo de Deus, que está aberto a todos os homens. De agora em diante, haverá “um homem novo”, “num só corpo” cuja cabeça é Cristo, formando um só povo e vivendo “num só Espírito”.

Para Paulo, a participação de judeus e pagãos dentro das comunidades que ele fundara como o único Povo de Deus é sinal concreto do “homem novo”. O projeto de unidade de Deus se realiza em Cristo que “é a nossa paz”. A mensagem de Cristo, se for levada à prática, fará cair todas as diferenças próprias das sociedades classistas porque o Espírito participa da obra de reconciliação.

A comunidade cristã, por ser fruto do Espírito, está chamada a ser uma família de irmãos, que partilham a mesma fé e a mesma proposta de vida. Um “corpo”, formado por uma grande diversidade de membros, onde todos se sentem unidos em Cristo e entre os quais reina uma verdadeira fraternidade.

Contudo, subsistem muros (erguidos por diferenças raciais, políticas, religiosas, sociais e afetivas) que impedem uma total experiência de fraternidade universal (sabemos disso!). Na nossa vida pessoal e familiar, na nossa experiência de caminhada comunitária, aparecem frequentemente muros que nos dividem, que impedem a comunicação, o encontro, a comunhão. Nós, como discípulos de Cristo que veio reconciliar “judeus e gregos” e fazer de todos “um só povo”, temos o dever de dar testemunho de unidade e de lutar contra todas as barreiras que separam os homens.


EVANGELHO: Marcos 6,30-34

30 Os apóstolos se reuniram com Jesus e contaram tudo o que haviam feito e ensinado. 31 Havia aí tanta gente que chegava e saía, a tal ponto que Jesus e os discípulos não tinham tempo nem para comer. Então Jesus disse para eles: «Vamos sozinhos para algum lugar deserto, para que vocês descansem um pouco.» 32 Então foram sozinhos, de barca, para um lugar deserto e afastado. 33 Muitas pessoas, porém, os viram partir. Sabendo que eram eles, saíram de todas as cidades, correram na frente, a pé, e chegaram lá antes deles. 34 Quando saiu da barca, Jesus viu uma grande multidão e teve compaixão, porque eles estavam como ovelhas sem pastor. Então começou a ensinar muitas coisas para eles.

No Domingo passado contemplávamos Jesus enviando os discípulos em missão. Hoje vemos os discípulos voltar felizes e desejosos de contar ao Senhor tudo o que haviam realizado. Jesus aproveita a oportunidade para convidá-los a um merecido descanso e, ao mesmo tempo, ensiná-los a dedicar certos espaços para interiorizar e avaliar sua vida pessoal e sua ação apostólica. Por isto os conduz a um “lugar deserto” que, na perspectiva bíblica, nada mais é do que um estado de ânimo, um modo de ficar a sós com Deus e consigo mesmo. O espaço interior necessário para encontrar o eixo da própria existência e da própria vocação.

No entanto, aquele povo desejoso de ouvir Jesus não lhes deu sossego, “saíram de todas as cidades, correram na frente, a pé, e chegaram lá antes deles”; e quando chegaram ao lugar onde se dirigiam, lá estavam eles de novo, esperando. Isto foi demais para Jesus, que “teve compaixão” daquele povo “porque eles estavam como ovelhas sem pastor”. Por isso, abandonando seus planos, “começou a ensinar” de novo.

Nunca chegaremos a conhecer profundamente esse lado humano do Senhor. Marcos nos ajuda a aproximar-nos d'Ele e perceber a sua sensibilidade. Diante de tanta carência naquele povo, Jesus não sentiu a sua privacidade invadida nem se importou mais com o descanso d'Ele e dos discípulos. Com carinho e com paciência, começou novamente a evangelizar.

A palavra “compaixão”, que usa Marcos, só se aplica a Jesus no Evangelho. Significa uma comoção profunda como a que o levou, por exemplo, a ressuscitar o filho da viúva de Naim sem ela pedir nada (ver Lucas 7,11-17) ou a chorar no sepulcro de Lázaro antes de o ressuscitar (ver João 11, 28-36).

Sentir profundamente a necessidade dos outros, perceber que estão “como ovelhas sem pastor”, é o primeiro passo para sentir a vocação e deixar-se levar pelo Espírito de Jesus a fim de dedicar-se aos outros e assumir uma verdadeira ação pastoral. O resto pode ser filantropia, colaboração, participação, voluntariado (o que, aliás, é muito bom), mas não pastoral (que é muito mais profundo e melhor).

A origem da palavra pastoral lembra o cuidado de Jesus, Bom Pastor, acolhendo e ensinando. Fazer pastoral é praticar a compaixão (“padecer-com alguém”), sentir na própria carne o problema, a carência ou a necessidade do outro. Pastoral não é qualquer atividade benéfica, por boa que seja, mas aquela atividade que transforma as pessoas em gente que descobre com alegria a presença de Deus em sua vida e passa a deixar-se conduzir por Ele. Para tanto é preciso que as pessoas que participam das pastorais numa comunidade eclesial tenham alma de pastor, atitudes de pastor, acolhimento, liderança, verdadeiro amor. É necessário que os que fazem pastoral conheçam e sintam profundamente a situação das pessoas para as quais foram enviados. A compaixão e a misericórdia, tão escassas em nosso mundo, são prerrogativa e característica dos verdadeiros apóstolos do Senhor no meio do seu Povo.

Se fazer pastoral é conduzir o povo pelo caminho de Deus, ela deve estar inspirada, não pela ânsia de poder  ou pelo gosto de aparecer, mas pelo espírito de serviço. Jesus não quis se apoderar do povo para si. Unicamente tentou levar o rebanho para o Pai. Só isso. Ser pastor não tem nada a ver com autoafirmação. É a vocação (o chamado de Deus para a missão) que nos leva a orientar o povo para o nosso Pai.

Temos que reconhecer que o comportamento de Jesus para com aquele povo carente é bem outro do nosso comportamento nesta vida corrida que levamos, na qual, primeiro somos nós; depois ninguém e, se houver espaço, podemos até dedicar um pouco do nosso tempo aos outros. Com-paixão, porém, é fundamental na convivência humana. Não se trata apenas de ter bons sentimentos. É mais do que isso: é ser capaz de colocar-se no lugar do outro para sentir seus problemas e poder ajuda-lo como irmãos. Se não tivermos a solução, bastará ouvir o irmão com paciência, dar atenção, ficar do seu lado. Isto é exercer a com-paixão (padecer com alguém, sentir o problema do outro).

Por que Jesus “teve compaixão” daquele povo? Porque “estavam como ovelhas sem pastor”. Esse é o segredo..! Não se trata de esperar que alguém que precisa venha a nós para pedir ajuda. Ajudar, neste caso, é ser solidário. Certamente, é muito bom. Mas se quisermos mais, se quisermos imitar Cristo e sermos pastores de alguém, precisamos ter sensibilidade e capacidade de compaixão para descobrir onde e como se encontram as pessoas perdidas na vida, que andam desorientadas “como ovelhas sem pastor”. Seguindo o exemplo do Senhor, haveremos de renunciar ao nosso sossego para oferecer nosso ombro amigo e toda a ajuda que, realmente, estiver ao nosso alcance.

Participar da Pastoral da Igreja não é uma atividade exclusiva dos bispos, padres e freiras; é a missão de todo o povo de Deus.
Todo aquele que foi batizado se tornou mediador entre Deus e os homens. Aproximar as pessoas de Deus é missão de todos; assim como acompanha-las em seu caminhar. Esta missão pastoral há de ser motivada pela misericórdia e a compaixão. Sem esses valores corremos o risco de buscar nossos próprios interesses ou de realizar una atividade na qual Deus pode não estar presente. Para ser verdadeiros pastores é preciso entrar na pele dos demais, estar unidos a eles num mesmo coração e buscar sempre o bem dos outros acima do bem próprio.

+ Se estivermos de olhos abertos para a realidade, poderemos descobrir pessoas que fogem dos seus problemas e se afundam no vicio; jovens sem orientação de vida que procuram a felicidade lá onde ela não está; gente com fome e sede, não só de pão, mas também de Deus; famílias desunidas; crianças abandonadas nas ruas... Será que não conseguiremos perceber que são “como ovelhas sem pastor”?

+ Quem vai se colocar no lugar deles? Quem vai sentir o seu problema? Quem vai arriscar-se a perder seu tempo e seu sossego? Alguém poderia dizer que não faria isso nem por todo o dinheiro do mundo. Por dinheiro, não. Mas por amor a Deus e ao próximo, SIM. Se nós, cristãos, não fizermos isso, quem o fará, então?

Qualquer que seja a tua condição de vida,
não te deixes prender pelo cerco estreito da tua família.

Uma vez por todas adota a família humana.
Procura não sentir-te estranho em nenhuma parte do mundo.

Sê um homem em meio aos homens.

Que nenhum problema de qualquer povo te seja indiferente.
Vibra com as alegrias e as esperanças de cada grupo humano.

Faz teus os sofrimentos e as humilhações de teus irmãos de humanidade.

Vive a escala mundial, ou melhor, a escala universal.

(Dom Helder Câmara)

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centro de promoÇÃO VOCACIONAL - osa
1º ENCONTRO VOCACIONAL AGOSTINIANO NACIONAL -
27, 28 E 29 DE julho DE 2018 EM recife (pe)

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