img
img

HOMILIA
eSCRITA POR Pe. C.Madrigal, o.s.a.- ciriacomadrigal@gmail.com

DIA 24 DE SETEMBRO DE 2017

A Palavra de Deus, que iremos ouvir, leva-nos a descobrir um Deus cujos caminhos e pensamentos estão tão acima dos nossos caminhos e pensamentos, quanto o céu está acima da terra. Ao contrário da mentalidade religiosa judaica da época, Jesus introduziu a ideia de que a salvação se obtém pela misericórdia de Deus, mesmo que não a mereçamos, e não pelos próprios méritos. Tudo é dom gratuito do Pai. Tudo é Graça.

Neste Domingo somos convidados e mudar de mentalidade no nosso modo de pensar e agir (1ª leitura), renunciando aos esquemas do mundo e “voltando-nos” para Deus pela conversão da mente e do coração a exemplo de Paulo que abraçou a lógica de Deus, renunciando aos seus interesses e colocando Cristo no centro da sua vida (2ª leitura). O evangelista São Mateus, por sua vez, mostra-nos que Deus chama todo ser humano à salvação sem considerar os méritos ou as qualidades pessoais de cada um (evangelho). Só leva em conta a forma como é acolhido seu convite. Nossa relação com Ele não pode estar marcada pelo interesse, mas pelo amor e pelo sentimento de gratidão.

1ª Leitura: Isaias 55, 6-9

6 Procurem Javé enquanto ele se deixa encontrar; chamem por ele enquanto está perto. 7 Que o ímpio deixe o seu caminho e o homem maldoso mude os seus projetos. Cada um volte para Javé e ele terá compaixão; volte para o nosso Deus, pois ele perdoa com generosidade. 8 Os meus projetos não são os projetos de vocês, e os caminhos de vocês não são os meus caminhos - oráculo de Javé. 9 Tanto quanto o céu está acima da terra, assim os meus caminhos estão acima dos caminhos de vocês, e os meus projetos estão acima dos seus projetos.

O texto desta primeira leitura é um apelo para buscar a Deus em nossa vida, porque Ele não é um Deus terrível e justiceiro, como sempre foi apresentado pela teologia do Antigo Testamento. Pelo contrário, Ele age com misericórdia sendo que os caminhos do Senhor não são como os dos homens nem seus planos como os nossos.

É por isto que o profeta anima o povo de Israel a buscar o Senhor para sair da situação de opressão em que se encontra no desterro, na esperança de um novo "êxodo", ou seja, um novo caminho de libertação.

Desta forma é apresentado o Deus da Aliança, do qual Jesus irá nos falar no seu Evangelho (e na parábola que iremos ler nesta liturgia) para ajudar-nos a compreender que Deus tem para nós um plano de salvação. Estamos chamados a procura-lo e converter-nos, sabendo que Ele está perto de nós e se deixa encontrar. Deus não se afasta nem foge de nós porque é compassivo e misericordioso. Por istovale a pena procurá-lo.

Por que Deus haveria de nos perdoar quando pecamos? Não seria "justo" que fossemos castigados? O profeta insiste em que é preciso buscar o Senhor pelo arrependimento e a conversão. Deus está sempre pronto para o perdão (“O homem maldoso mude os seus projetos...; volte para o nosso Deus, pois ele perdoa com generosidade”). Deus não é limitado e mesquinho como nós. O seu projeto é de liberdade e vida para todos e a escolha mais sábia do homem consiste em procurá-lo, ouvindo a sua Palavra, convertendo-se a Ele e tornando-se o seu aliado na luta em prol da liberdade e da vida que o Senhor quer para todos.


2ª Leitura: Filipenses 1, 20c-24.27a

20 O que desejo e espero é não fracassar, mas, agora como sempre, manifestar com toda a coragem a glória de Cristo em meu corpo, tanto na vida, como na morte.... 24 No entanto, por causa de vocês, é mais necessário que eu continue a viver.... 27 Uma só coisa: comportem-se como pessoas dignas do Evangelho de Cristo.

Paulo, prisioneiro por Cristo, está consciente de que corre risco de vida; mas está sereno e confiante porque a única coisa que lhe interessa é Cristo e o seu Evangelho. Não sabe se sairá da prisão vivo ou morto, mas, para ele, isso não tem importância; o que importa é que Cristo seja anunciado (durante a vida ou depois da morte do apóstolo). Para Paulo, Cristo é a autêntica razão de ser e de viver e fala aos Filipenses do significa para ele «viver em Cristo», estar com Ele, orar com Ele porque sentiu sua presença salvadora no mais profundo de seu ser e não teme a morte; toda a sua confiança está depositada em Cristo, seu Senhor. Diante da experiência de "viver em Cristo", a morte abre-lhe a porta da verdadeira vida que ninguém poderá fechar.

Na perspectiva de Paulo, a morte seria bem vinda, não como libertação das dificuldades e das dores que se experimentam na vida terrena, mas como caminho direto para o encontro definitivo com Cristo. Por isso não se importaria em morrer a curto prazo. No entanto, Paulo está consciente de que Deus pode ter outros planos e querer que ele continue algum tempo mais na terra para dar testemunho do Evangelho de Cristo em benefício das comunidades cristãs. Por Cristo, está disposto a tudo. Na verdade, não são os interesses de Paulo que contam, mas os interesses de Cristo.

Esta é uma das passagens mais significativas de Paulo no que se refere à teologia da morte e da ressurreição e, especialmente, do que significa a vida e a morte para todos nós. Em Cristo e com Cristo não somos vítimas de um destino fatal, al contrario, morremos para nascer de novo.


Evangelho: Mateus 20, 1-16a

1 «De fato, o Reino do Céu é como um patrão, que saiu de madrugada para contratar trabalhadores para a sua vinha. 2 Combinou com os trabalhadores uma moeda de prata por dia, e os mandou para a vinha. 3 Às nove horas da manhã, o patrão saiu de novo. Viu outros que estavam desocupados na praça, 4 e lhes disse: 'Vão vocês também para a minha vinha. Eu lhes pagarei o que for justo'. 5 E eles foram. O patrão saiu de novo ao meio-dia e às três horas da tarde, e fez a mesma coisa. 6 Saindo outra vez pelas cinco horas da tarde, encontrou outros que estavam na praça, e lhes disse: 'Por que vocês estão aí o dia inteiro desocupados?' 7 Eles responderam: 'Porque ninguém nos contratou'. O patrão lhes disse: 'Vão vocês também para a minha vinha'. 8 Quando chegou a tarde, o patrão disse ao administrador: 'Chame os trabalhadores, e pague uma diária a todos. Comece pelos últimos, e termine pelos primeiros'. 9 Chegaram aqueles que tinham sido contratados pelas cinco da tarde, e cada um recebeu uma moeda de prata. 10 Em seguida chegaram os que foram contratados primeiro, e pensavam que iam receber mais. No entanto, cada um deles recebeu também uma moeda de prata. 11 Ao receberem o pagamento, começaram a resmungar contra o patrão: 12 'Esses últimos trabalharam uma hora só, e tu os igualaste a nós, que suportamos o cansaço e o calor do dia inteiro!' 13 E o patrão disse a um deles: 'Amigo, eu não fui injusto com você. Não combinamos uma moeda de prata? 14 Tome o que é seu, e volte para casa. Eu quero dar também a esse, que foi contratado por último, o mesmo que dei a você. 15 Por acaso não tenho o direito de fazer o que eu quero com aquilo que me pertence? Ou você está com ciúme porque estou sendo generoso?' 16 Assim, os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos.»

A parábola dos trabalhadores descontentes pode parecer um tanto difícil de compreender: o dono da lavoura contrata operários no início do dia, a meia manhã, ao meio dia, no meio da tarde e no fim do dia; mas paga a todos o mesmo salário. Nada demais que aqueles que trabalharam o dia todo achassem injusta esta forma de pagamento. O que será que Jesus está querendo nos dizer com isto?

O pano de fundo da parábola apresenta-nos o modo de agir de Deus, contrario à nossa lógica mercantilista e está relacionado com a controvérsia surgida entre Jesus e as autoridades judias a respeito da relação d’Ele com pessoas consideradas impuras, como os publicanos, os pecadores, os pagãos e as prostitutas (gente como essa poderia ser aceita no Reino de Deus, como falava Jesus?).

A parábola questiona o conceito religioso de salvação entre os judeus da época, fundamentado na ideia do mérito e da retribuição: quem era fiel no cumprimento da Lei de Moisés, tinha “direito” à salvação (como se a salvação fosse objeto de compra e venda).

Para Jesus, no entanto, a salvação é um dom gratuito de Deus e esta graça tem a ver com o amor misericordioso do Pai. Deus não usa os nossos critérios interesseiros e “lucrativos” (“Quero dar... a esse, que foi contratado por último, o mesmo que dei a você”). Para Ele, tanto os primeiros “operários” quanto os últimos são objeto da totalidade do seu amor porque o amor não tem divisão nem medida. Ele o oferece a cada um por inteiro; não de acordo com os seus méritos, mas conforme a sua necessidade.

Interessante perceber, no nosso texto, que os únicos que reclamam são os que sabem desde o inicio quanto vão receber. Não se queixam de ter sofrido uma injustiça, (pois receberam o pagamento combinado), mas do pagamento que recebem os outros. Comprovar que o Senhor paga a todos por igual os incomoda. Transpondo isto para a nossa realidade, é a atitude das pessoas que se acham santas, com mais méritos do que os outros; incomoda-lhes que Deus ofereça a salvação para todos porque se relacionam com Ele em termos mercantilistas, tentando comprar a SUA salvação. Por isso, pensam ser preciso fazer méritos, aplicar muitas Missas pelos parentes falecidos, rezar as orações com mais “dias de indulgência”... como se fosse possível contabilizar os nossos méritos e, com eles, adquirir direitos diante de Deus (não é verdade que essa mentalidade ainda subsiste, entre nós?).

A parábola esclarece que, no Reino de Deus, não existem marginalizados. Todos têm a mesma oportunidade de participar da bondade e misericórdia do Pai, que supera tudo o que os homens consideram justiça. No Reino não há lugar para o ciúme. Aqueles que julgam possuir mais méritos do que os outros devem aprender que o Reino é dom gratuito para todos.

O nosso sentido de justiça é muito "sistemático" e calculista. Acharíamos justo que cada operário da parábola recebesse conforme as horas trabalhadas. A justiça de Deus, porém, vai muito, além disso: o pagamento se faz, não conforme as horas trabalhadas, mas conforme as necessidades do trabalhador, que são as necessidades da sua família, independentemente do trabalho contratado.

Nesse ponto, o pensamento de Deus rompe nosso esquema mental de justiça, fria e calculista, que se limita a "comprar" o trabalho humano apenas, sem levar em conta as reais necessidades do trabalhador. O conceito de justiça divina manifestado por Jesus ilumina o relacionamento humano e o transforma em respeito pelo irmão.

Já viram uma mãe fazer o prato para cada membro da família? Nunca faz um prato igual ao outro...! É que ela não distribui o alimento por igual, mas conforme a necessidade de cada um. A necessidade, porém, é sempre desigual. Por isso o prato é desigual. É através do amor que ela descobre a necessidade real de cada um. Mesmo se algum filho reclamar, ela sabe que está sendo absolutamente justa quando age desta forma desigual.

Tudo indica que isto é o que Jesus quer nos mostrar na parábola dos operários da vinha. Nós não temos "direito" algum diante de Deus seja qual for a boa ação que tivermos praticado. Nada ganha Deus com isso; nada nos deve; nada tem a "pagar". Quem ganha somos nós, na medida em que a pratica do bem nos faz crescer como pessoas humanas. 

Ainda bem; porque se Ele se limitasse a pagar-nos pelos nossos "merecimentos", coitados de nós! Com certeza, sairíamos sempre perdendo! Felizmente, Ele nos ama e é por isso que nos dá tudo de graça, sem importar-se com reclamações por oferecer a salvação àqueles que só fizeram coisa errada na vida, mas se converteram na última hora.

- (“Mas nós te servimos a vida toda e este aqui só na última hora se converteu"!) - poderíamos dizer. - ("Meu filho, "não fui injusto com você"! Não estou lhe dando a salvação prometida? Não foi para você uma grande oportunidade servir-me e praticar o bem? Isto não te fez crescer e ser feliz? Ou será que você se arrepende de ter sido bom só porque teu irmão da última hora recebeu tanto quanto você, sem ele “merecer”?)

Realmente, como diz Isaías, “tanto quanto o céu está acima da terra, assim os meus caminhos estão acima dos caminhos de vocês, e os meus projetos estão acima dos seus projetos”. Se nos tornarmos alunos do Evangelho e discípulos de Cristo, iremos perceber que neste mundo injusto em que uns tomam sistematicamente o que é dos outros e se nega ao pobre aquilo que lhe pertence, como filho de Deus, corremos o risco de conformarmo-nos com que cada um receba uma magra fatia do grande bolo que Deus fez para todos. Sem dúvida que esta justiça mesquinha pode até parecer um progresso. Mas é o que a pessoa precisa? Quem tem muito precisa de tanto assim? Quem tem pouco vai ter o suficiente só com isso?

Por incrível que pareça ser justo, na perspectiva do Evangelho, é muito mais do que dar a cada um a sua parte. É dar aquilo que precisa. Isso só se pode descobrir, amando o irmão. Isto nos leva a entender que justiça plena só existe quando é fecundada pelo amor.

Esta lógica do Evangelho, certamente, não penetrou ainda em nossa sociedade. Mas será que penetrou, pelo menos, em nosso modo de pensar? Sem dúvida, os pensamentos de Deus não são como os nossos pensamentos, mas, pelo menos, ouvindo esta parábola, bem que poderíamos tentar mudar de mentalidade. Não aconteça ser verdade aquilo que escreveu Voltaire: “Deus fez o ser humano à sua semelhança; o ser humano, porém, se empenha em fazer Deus semelhante a ele”.

+ Existem cristãos que não entendem por que Deus ama e aceita em pé de igualdade “operários” da primeira hora e aqueles que só tardiamente responderam ao apelo do Reino. Sentem-se injustiçados, incompreendidos, ciumentos, invejosos e não entendem essa lógica de misericórdia que, à luz dos critérios humanos, lhes parece muito injusta. Na sua perspectiva, a fidelidade a Deus e aos seus mandamentos merece uma recompensa e esta deve ser tanto maior quanto maior a tempo e a qualidade dos “serviços” prestados a Deus.

+ Todos têm lugar na Igreja de Jesus… (“Mas todos terão a mesma dignidade e importância?”). Jesus garante que sim. Não há trabalhadores mais importantes do que os outros, não há trabalhadores de primeira e de segunda classe. O que há são homens e mulheres que aceitaram o convite do Senhor (tarde ou cedo, não interessa) e foram trabalhar no seu Reino. Ninguém pode se sentir dono da comunidade porque (“estou aqui há mais tempo do que os outros”), ou porque (“tenho contribuído para a comunidade mais do que os outros”). Na comunidade de Jesus, a idade, o tempo de serviço, a raça, a posição social, não servem para fundamentar qualquer tipo de privilégios ou qualquer superioridade sobre os outros irmãos. Embora com funções diversas, todos são iguais em dignidade e todos devem ser acolhidos, amados e considerados de igual forma.

+ O texto deste evangelho denuncia, ainda, a velha concepção de Deus como um “negociante”, que contabiliza os créditos dos homens e lhes paga em consequência. Deus não faz negócio com os homens: Ele não precisa da mercadoria que temos para Lhe oferecer. O Deus que Jesus anuncia é um Pai que quer ver os seus filhos livres e felizes e que, por isso, derrama o seu amor, de forma gratuita e incondicional, sobre todos eles. Sendo assim que sentido tem as famosas promessas (“se o Senhor me der isto, prometo-lhe aquilo”). O bom cristão não faz as coisas por interesse, ou de olho numa recompensa (o céu, a “sorte” na vida, livrar-se da doença, ou ganhar na lotaria), mas porque está convicto de que esse comportamento que Deus lhe propõe é o caminho para a verdadeira vida e o segue por amor a Deus. Quem segue o caminho certo, é feliz, encontra a paz e a serenidade e colhe, logo aí, a sua recompensa.

img

centro de promoÇÃO VOCACIONAL - osa
2º ENCONTRO VOCACIONAL AGOSTINIANO NACIONAL -
22, 23 e 24 de setembro de 2017 EM sÃo paulo (SP)

img
img
img

 

 

 

 

 

 

 

img
© OSA Brasil 2009 | 2017
.:: Todos os Direitos Reservados ::.