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HOMILIA
eSCRITA POR Pe. C.Madrigal, o.s.a.- ciriacomadrigal@gmail.com

DIA 30 DE SETEMBRO DE 2018

Neste último Domingo de setembro, encerramos o mês da Bíblia descobrindo que ser discípulos de Jesus não nos torna donos do bem e da verdade. Precisamos aprender com Jesus a reconhecer e aceitar a presença e a ação do Espírito Santo em tantas pessoas boas que não pertencem à Igreja como tal, mas que praticam o bem e são sinais vivos do amor de Deus no mundo.

É assim que Jesus ensina a se comportar sem arrogância, sem ciúmes, sem presunção. Acolher, apoiar e estimular todos aqueles que agem em favor dos irmãos é uma forma de distanciar-se de sentimentos e atitudes incompatíveis com o Reino de Deus (evangelho). Tudo isto já tinha sido inspirado por Deus, muito tempo antes, e aparece no modo de agir de Moisés (1ª leitura),
mas nem por isso, deve enfraquecer a nossa coerência entre aquilo que cremos e as atitudes de justiça que tomamos (2ª leitura).

1ª LEITURA: Números 11, 25-29

25 Então Javé desceu na nuvem, falou com Moisés, separou uma parte do espírito que Moisés possuía, e a colocou nos setenta anciãos. Quando o espírito pousou sobre eles, puseram-se a profetizar; mas, depois, nunca mais o fizeram. 26 Dois homens do grupo tinham ficado no acampamento: um se chamava Eldad e o outro Medad. Embora estivessem na lista, não tinham ido à tenda. Mas o espírito pousou sobre eles e começaram a profetizar no acampamento. 27 Um jovem foi correndo contar a Moisés: «Eldad e Medad estão profetizando no acampamento!» 28 Josué, filho de Nun, que desde a juventude era ajudante de Moisés, interveio: «Moisés, meu senhor, proíba-os de fazer isso». 29 Moisés, porém, respondeu: «Você está com ciúme por mim? Oxalá todo o povo de Javé fosse profeta e recebesse o espírito de Javé!».

Na caminhada pelo deserto rumo à Terra Prometida, o povo de Israel se sente cansado de suportar privações e lembra-se da terra do Egito onde eram escravos, mas tinham o pão garantido. Para conseguir que o povo deixe de pensar em voltar para trás, renunciando ao ideal de liberdade e vida digna, e seja capaz de enfrentar o desafio de atravessar o deserto, Moises decide dividir sua liderança. Ora ao Senhor e “Javé... separou uma parte do espírito que Moisés possuía, e a colocou nos setenta anciãos” escolhidos. Desse modo, a direção do povo seria obrigação deles também e não apenas de Moises. Qualquer pessoa que colaborasse na conscientização do povo para que desistisse de querer voltar para o pão garantido da escravidão e assumisse o desafio da carestia do deserto para conquistar a liberdade da Terra Prometida, deveria ser considerado um profeta “autorizado” por Moises e em comunhão com o Projeto de Deus.

No caso de Eldad e Medad, também passaram a profetizar, mas “embora estivessem na lista, não tinham ido à tenda” do encontro para receber “uma parte do espírito de Moises”. Josué acha isso um abuso intolerável, que prejudica a hierarquia estabelecida e a autoridade de Moisés («Moisés, meu senhor, proíba-os de fazer isso»). A resposta de Moisés é a resposta de um homem livre, magnânimo, de espírito aberto, que não está preocupado com o controle dos mecanismos de poder, mas com a vida e a felicidade do seu Povo («Você está com ciúme por mim? Oxalá todo o povo de Javé fosse profeta e recebesse o espírito de Javé!»). A imaturidade de Josué o levava a estar mais preocupado em defender a “autoridade” de Moises do que a liberdade do Espírito para fazer o povo tomar consciência da necessidade de continuar à frente.

A humildade e bom critério de Moisés o levaram à convicção de que a liderança exercida por ele, seria mais eficaz se fosse repartida entre o grupo escolhido, pois a ação do Espírito de Deus não está sujeita às estruturas e instituições, por melhores que sejam. Reconhecendo a validade da profecia fora dos canais oficiais por ele organizados, ensina hoje aos responsáveis das nossas comunidades a aceitar a participação dos irmãos, partilhando com outros o peso da responsabilidade na condução da comunidade do Povo de Deus. Só assim a comunidade consegue progredir.


2ª LEITURA: Tiago 5, 1-6

1 E agora vocês, ricos: comecem a chorar e gritar por causa das desgraças que estão para cair sobre vocês. 2 Suas riquezas estão podres, suas roupas foram roídas pela traça; 3 o ouro e a prata de vocês estão enferrujados; e a ferrugem deles será testemunha contra vocês, e como fogo lhes devorará a carne. Vocês amontoaram tesouros para o fim dos tempos. 4 Vejam o salário dos trabalhadores que fizeram a colheita nos campos de vocês: retido por vocês, esse salário clama, e os protestos dos cortadores chegaram aos ouvidos do Senhor dos exércitos. 5 Vocês tiveram na terra uma vida de conforto e luxo; vocês estão ficando gordos para o dia da matança! 6 Vocês condenaram e mataram o justo, e ele não conseguiu defender-se.

Tiago se faz eco da profecia social de Israel (ver Amós 8, 4-7 e Deutenômio 24,14) para falar da coerência entre a vida e a fé e condenar os que visam unicamente o lucro enquanto se enriquecem às custas do trabalhador, negando-lhe o salário justo. Acumular bens à custa da miséria e da exploração dos irmãos é um crime abominável que Deus não deixará impune.

Não é cristão quem não paga o salário justo aos seus operários, mesmo que ofereça depois somas quantiosas para a construção de uma igreja; não é cristão quem especula com os bens de primeira necessidade, mesmo que vá todos os domingos à Missa e pertença a vários grupos paroquiais; não é cristão quem se envolve em corrupção, mesmo que seja muito amigo do padre; não é cristão quem se aproveita da ignorância e da miséria para realizar negócios altamente rentáveis, mesmo que pense destinar a obras sociais algumas migalhas do fruto das suas rapinas.

Pelas palavras de Tiago, fica evidente que o problema não são as riquezas em si, mas o modo como foram adquiridas (“o salário dos trabalhadores... retido por vocês”) que inclui todo tipo de opressão jurídica e suborno contra os quais os pobres não tem meios para se defender. A acusação contra eles (”esse salário (que) clama, e os protestos dos cortadores”) é Deus que vai julgar, pois os clamores dos trabalhadores ”chegaram aos ouvidos do Senhor”. As riquezas injustamente adquiridas são a prova de condenação (“o ouro e a prata de vocês estão enferrujados; e a ferrugem deles será testemunha contra vocês”) e o castigo será a perda dessas riquezas acumuladas.

Tudo isto é de uma atualidade trágica em nossos dias nos quais impera um “capitalismo selvagem”, insaciável na hora de conseguir lucros e insensível na hora de distribuir esses lucros de forma proporcional e equitativa entre aqueles que contribuíram com sua força de trabalho para consegui-los.

Para além da veemência das palavras de Tiago, deve ficar esta mensagem: quem vive para os bens materiais e coloca neles o sentido da sua existência, dificilmente terá disponibilidade para acolher os dons de Deus e a vida plena que Ele nos oferece. Por outro lado, Deus não tolera a exploração, a opressão do pobre; e quem conduzir a sua vida por caminhos de injustiça, não faz parte do reino de Deus.

Tiago nos anima a tomar as dores dos “pequenos” e oprimidos, ficando longe de qualquer tipo de compromisso desonesto com os “poderosos”.


EVANGELHO: Marcos 9, 38-43.45.47-48

38 João disse a Jesus: «Mestre, vimos um homem que expulsa demônios em teu nome. Mas nós lhe proibimos, porque ele não nos segue.» 39 Jesus disse: «Não lhe proíbam, pois ninguém faz um milagre em meu nome e depois pode falar mal de mim. 40 Quem não está contra nós, está a nosso favor. 41 Eu garanto a vocês: quem der para vocês um copo de água porque vocês são de Cristo, não ficará sem receber sua recompensa. 42 E se alguém escandalizar um destes pequeninos que acreditam, seria melhor que ele fosse jogado no mar com uma pedra de moinho amarrada no pescoço. 43 Se a sua mão é ocasião de escândalo para você, corte-a. É melhor você entrar para a vida sem uma das mãos, do que ter as duas mãos e ir para o inferno, onde o fogo nunca se apaga......... 45 Se o seu pé é ocasião de escândalo para você, corte-o. É melhor você entrar para a vida sem um dos pés, do que ter os dois pés e ser jogado no inferno............ 47 Se o seu olho é ocasião de escândalo para você, arranque-o. É melhor você entrar no Reino de Deus com um olho só, do que ter os dois olhos e ser jogado no inferno, 48 onde o seu verme nunca morre e o seu fogo nunca se apaga.

Os discípulos tinham recebido de Jesus o poder de “expulsar demônios”, mas, pela reação deles diante daquele homem, que também “expulsava demônios em nome de Jesus”, percebemos que estavam mais apegados ao poder de curar do que ao benefício que podiam realizar em favor dos doentes (na época, os doentes incuráveis eram tidos como endemoninhados). Sem importar-se com o bem que aquele homem poderia estar fazendo, tomaram uma decisão drástica («nós lhe proibimos»). A razão era muito simples: «porque ele não nos segue». Com isto, certamente queriam livrar-se de um “concorrente” incômodo e, ainda, buscavam a aprovação de Jesus, pensando que eles deviam ter a exclusiva e o monopólio da ação libertadora do Senhor.

A resposta de Jesus é de uma sabedoria, abertura e tolerância incríveis (“Não lhe proíbam, pois ninguém faz um milagre em meu nome e depois pode falar mal de mim”). A comunidade cristã tem que ser aberta, acolhedora, tolerante, capaz de aceitar como sinais de Deus os gestos libertadores que acontecem no mundo, mesmo fora dela. Dá para perceber que a intenção do Senhor não era formar uma seita fechada monopolizadora da sua missão. Pelo contrário, todo aquele que luta pela justiça e promove o ser humano, faz parte da missão do Senhor porque “quem não está contra nós, está a nosso favor”.

Na sociedade atual há muitos homens e mulheres que trabalham por um mundo mais justo e mais humano sem pertencer à Igreja. Alguns não são cristãos e nem têm fé, mas trabalhando pelo do bem comum, estão abrindo caminhos ao reino de Deus e sua justiça. Todas essas pessoas estão do lado de Jesus e vivem na dinâmica do Reino. Nada mais contrário à missão do Senhor do que os seus discípulos considerarem-se uma casta privilegiada. Ninguém recebeu procuração de Jesus para fazer o bem.
                                                          
Na segunda parte do nosso texto, Marcos juntou aqui uma série de “palavras” de Jesus, independentes entre si e pronunciadas em contextos diversos, mas que tem em comum o tema do escândalo (que significa “tropeço”). Estas “palavras de Jesus”, que foram conservadas, são importantes porque apresentam algumas exigências para seus discípulos, servindo como indicadores de pertencer, ou não, à comunidade do Reino.

A condenação mais dura é para quem “escandalizar um destes pequeninos que acreditam”. Refere-se aos pobres e doentes, mas também às crianças. Neste sentido, adquire uma triste atualidade com o flagelo atual da exploração sexual de menores
(a pedofilia).
O castigo da “pedra de moinho amarrada no pescoço” não parece uma expressão exagerada diante do mal que
esta prática delitiva causa justamente aos mais desprotegidos da humanidade, que são as crianças.

A afirmação de Jesus a respeito de “quem der... um copo de água”, mostra que o importante, em nossa vida, não é o sensacional, mas o amor implícito nas pequenas coisas simples, porém necessárias e significativas.

A alegoria da “mão (que) é ocasião de escândalo” parece significar a ambição pela posse dos bens materiais; assim como a do ”pé...”, suscita a ideia do rumo errado que se toma na vida ou a do “olho”, da visão ou mentalidade distorcida. É necessário controlar sentimentos e atitudes (“corte-o”/“arranque-o”) incompatíveis com a opção por Cristo para não comprometer o nosso fim último (“entrar no Reino de Deus”), mesmo que seja tão difícil desapegar-se dos bens materiais, mudar o rumo da vida, cambiar de mentalidade (para poder continuar a viver como cristãos), quanto cortar um dos membros do nosso corpo. Isto quer dizer que, por grande que seja a renúncia, não estamos dispensados de tomar as decisões que se façam necessárias.

As palavras que Jesus dirige aos seus discípulos servem também para nós, pois se destinam aos discípulos de todas as épocas. Como os discípulos, nós também temos a tendência de fechar-nos em grupo diante dos outros e não perceber que muita gente ”não nos segue”, mas é honesta e justa; “não são católicos”, mas praticam o bem, amam o próximo e alguns, até, acreditam em Jesus como nós. A Igreja não pode ser uma seita arrogante, fechada, intolerante, fanática, que se arroga a posse exclusiva de Deus e das suas propostas. Tem de ser uma comunidade que sabe muito bem qual é o seu papel e a sua missão, mas que reconhece não ter a exclusividade do bem e da verdade; tem que ser capaz de alegrar-se com os gestos de bondade e de esperança que acontecem à sua volta, mesmo quando esses gestos resultem da ação de não cristãos e de pessoas que não pertencem à nossa Igreja.

É claro que nem tudo é a mesma coisa! É preciso ter convicção de nossa fé e amor pela nossa Igreja, mas, evitando desviar-nos para a intolerância e o sectarismo, temos que aprender a enxergar os outros com a compreensão de Moisés e a abertura de Jesus. Embora estejamos no caminho certo, Deus não nos deu procuração exclusiva para fazer o bem em nome d’Ele. O verdadeiro discípulo esforça-se por testemunhar os valores do Reino e alegra-se com os sinais da presença de Deus em tantos irmãos que seguem outros caminhos, mas lutam por construir um mundo mais justo e mais fraterno.

O Espírito de Deus (“espírito”=”sopro”) é totalmente livre e sopra onde quer. As sementes do bem e da verdade se espalham pelo mundo inteiro e estão presentes em tudo, mesmo que ocultas. Por isso não podemos decepcionar Jesus, dizendo-lhe “vimos um homem... (... mas não aprovamos o bem que fazia...), porque ele não nos segue”. Temos que compreender que, se alguém estiver praticando o bem, “não está contra nós, está a nosso favor”, é um “cristão anônimo”, como diz o Concílio Vaticano II. Podemos e devemos caminhar junto com ele porque os que somos “do bem”, de uma forma ou de outra, já estamos no mesmo barco.

Este é o princípio de tolerância a favor do bem: todo aquele que trabalha pela justiça, é solidário com os empobrecidos e participa na construção de um mundo mais pacífico, mais humano e mais justo, está trabalhando pelo Reino de Deus. Mesmo que ele não saiba disso, está ao nosso lado na obra de Jesus. O Senhor nos convida a valorizar, com respeito e alegria, todo o bem que se faz a favor do ser humano venha de onde vier. Na construção do Reino de Deus, “UMA MÃO LAVA A OUTRA” e ninguém pode ser excluído do serviço que se faz em nome do Senhor.

+ Como é difícil alegrar-nos com o sucesso de quem faz as coisas de forma diferente ao modo como nós as faríamos ou quando tudo dá certo para aqueles que não são dos nossos! É forte a tendência de relacionar-nos apenas com o nosso grupo ou com os que partilham das nossas ideias. E isto, até mesmo com os da nossa família, nossa igreja, nossa paróquia ou nosso partido político..! As leituras de hoje (1ª e 3ª) são uma luz, se quisermos superar este problema. Pensemos nisso!

+ Na segunda parte do evangelho, Jesus exige dos discípulos o corte radical com os valores, sentimentos e atitudes incompatíveis com a opção pelo Reino. O discípulo de Jesus nunca pode estar acomodado, instalado e conformado; mas sempre atento e vigilante, procurando detectar e eliminar da sua existência tudo aquilo que lhe impede o acesso à vida plena. Naturalmente, a renúncia ao egoísmo, ao comodismo, ao orgulho, à vontade de poder e de domínio, ao êxito e ao aplauso, é um processo difícil e doloroso; mas é também um processo libertador e gerador de vida nova. O que é que eu necessito “cortar” da minha vida, para me identificar mais com Jesus e integrar-me na comunidade do Reino, para ser mais livre e mais feliz?

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centro de promoÇÃO VOCACIONAL - osa
2º ENCONTRO VOCACIONAL AGOSTINIANO NACIONAL -
28, 29 E 30 DE setembro DE 2018 EM recife (pe)

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