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HOMILIA
eSCRITA POR Pe. C.Madrigal, o.s.a.- ciriacomadrigal@gmail.com

DIA 16 DE FEVEREIRO DE 2020

Neste Domingo, a liturgia começa amostra-nos o modo como Jesus interpreta a Lei de Deus transmitida por Moisés. Durante todo o Antigo Testamento esta Lei de Deus tinha servido como guia espiritual do povo de Israel. Cristo a transforma aperfeiçoando-a e dando sentido aos seus preceitos, mas não a suprime; quer levá-la à plenitude enchendo de espírito a sua letra morta para torná-la vida. O resultado é uma maior exigência no exercício responsável da liberdade humana (1ª leitura). Neste sentido, apresenta-nos um ideal de vida muito superior ao mero cumprimento de práticas e normas religiosas (evangelho); isto para chegar a uma fé adulta, fundada na sabedoria de Deus, amadurecida e iluminada pelo Espírito que nos guia para as mais altas metas da santidade (2ª leitura). Quem ama a Deus supera todas as leis.

1ª LEITURA: Eclesiastico 15, 16-21

16 Se quiseres observar os mandamentos, eles te guardarão; se confias em Deus, tu também viverás. 17 Diante de ti ele colocou o fogo e a água; para o que quiseres, tu podes estender a mão. 18 Diante do homem estão a vida e a morte, o bem e o mal; ele receberá aquilo que preferir. 19 A sabedoria do Senhor é imensa, ele é forte e poderoso e tudo vê continuamente. 20 Os olhos do Senhor estão voltados para os que o temem. Ele conhece todas as obras do homem. 21 Não mandou a ninguém agir como ímpio e a ninguém deu licença de pecar.

A observância dos mandamentos da Lei de Deus e a fidelidade à vontade do Senhor dependem de uma opção pessoal (“para o que quiseres, tu podes estender a mão”). Dado que a liberdade se exerce através da livre escolha, Deus nos deu a capacidade de escolher. Quando a escolha for entre o bem (“a vida”) e o mal (“a morte”), Ele respeitará a nossa opção porque nos quer livres até as últimas consequências. Mas, se causamos o mal, não poderemos dizer «foi Deus quem fez acontecer» porque Ele “não mandou a ninguém agir como ímpio e a ninguém deu licença de pecar” embora, na sua infinita sabedoria, o conhecimento de Deus penetre o mais íntimo do nosso ser onde se estabelecer o equilíbrio entre a liberdade e a responsabilidade, pois “tudo vê continuamente... Ele conhece todas as obras do homem”.

A leitura quer nos mostrar que não podemos fugir à nossa responsabilidade. Diante de nós estão as grandes opções, as grandes motivações de vida, esperando a nossa decisão (“Diante do homem estão a vida e a morte, o bem e o mal; ele receberá aquilo que preferir”). É aqui onde se comprova tanto a grandeza de Deus, que nos criou livres, quanto o mérito que temos ao tomar decisões que venham colaborar na construção de uma nova sociedade.

Os acertos e os erros, porém, são o nosso mérito ou demérito como consequência da liberdade que recebemos e a responsabilidade com que vivemos. Mesmo assim, sempre estamos convidados a rever nossos projetos à luz do projeto de Deus, que só quer vida para todos.


2ª LEITURA: 1Corintios 2, 6-10

Irmãos: 6 Entre os perfeitos nós falamos de sabedoria, não da sabedoria deste mundo nem da sabedoria dos poderosos deste mundo, que, afinal, estão votados à destruição. 7 Falamos, sim, da misteriosa sabedoria de Deus, sabedoria escondida, que desde a eternidade Deus destinou para nossa glória.6 Na realidade, é aos maduros na fé que falamos de uma sabedoria que não foi dada por este mundo, nem pelas autoridades passageiras deste mundo. 7 Ensinamos uma coisa misteriosa e escondida: a sabedoria de Deus, aquela que ele projetou desde o princípio do mundo para nos levar à sua glória. 8 Nenhum dos poderosos deste mundo conheceu essa sabedoria. Pois, se a tivessem conhecido, não teriam crucificado o Senhor da glória. 9 Mas, como está escrito, “o que Deus preparou para os que o amam é algo que os olhos jamais viram nem os ouvidos ouviram nem coração algum jamais pressentiu”. 10 A nós Deus revelou esse mistério através do Espírito. Pois o Espírito esquadrinha tudo, mesmo as profundezas de Deus.

Paulo descreve a “sabedoria de Deus” que age e se expressa na pessoa de Cristo crucificado, manifestando todo o seu poder na debilidade e na fraqueza. Esse é o motivo pelo qual o Apóstolo não se serviu de artifícios humanos para anunciar o Evangelho aos coríntios. Se os coríntios chegaram à fé foi pelo Espírito que agiu neles através de Paulo. A graça da fé é um dom do Espírito Santo.

O projeto de salvação que Deus tem para os homens, como resultado do seu imenso amor por nós, é um projeto que nos garante a vida definitiva, a realização plena, a chegada ao patamar do Homem Novo, a identificação final com Cristo. Participar dessa sabedoria de Deus é o objetivo da vida humana, porque esse conhecimento é o que salva a pessoa ao fazê-la tomar as decisões acertadas na vida que sempre se encontram no rumo do caminho de Deus.


EVANGELHO: Mateus 5, 17-37

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: 17 Não penseis que vim abolir a Lei e os Profetas. Não vim para abolir, mas para dar-lhes pleno cumprimento. 18 Em verdade, eu vos digo: antes que o céu e a terra deixem de existir, nem uma só letra ou vírgula serão tiradas da Lei, sem que tudo se cumpra. 19 Portanto, quem desobedecer a um só destes mandamentos, por menor que seja, e ensinar os outros a fazerem o mesmo, será considerado o menor no Reino dos Céus. Porém, quem os praticar e ensinar será considerado grande no Reino dos Céus. 20 Porque eu vos digo: Se a vossa justiça não for maior que a justiça dos mestres da Lei e dos fariseus, vós não entrareis no Reino dos Céus. 21 Vós ouvistes o que foi dito aos antigos: 'Não matarás! Quem matar será condenado pelo tribunal'. 22 Eu, porém, vos digo: todo aquele que se encoleriza com seu irmão será réu em juízo; quem disser ao seu irmão: 'patife!' será condenado pelo tribunal; quem chamar o irmão de 'tolo' será condenado ao fogo do inferno. 23 Portanto, quando tu estiveres levando a tua oferta para o altar, e ali te lembrares que teu irmão tem alguma coisa contra ti, 24 deixa a tua oferta ali diante do altar, e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão. Só então vai apresentar a tua oferta. 25 Procura reconciliar-te com teu adversário, enquanto caminha contigo para o tribunal. Senão o adversário te entregará ao juiz, o juiz te entregará ao oficial de justiça, e tu serás jogado na prisão. 26 Em verdade eu te digo: dali não sairás, enquanto não pagares o último centavo. 27 Ouvistes o que foi dito: 'Não cometerás adultério'. 28 Eu, porém, vos digo: Todo aquele que olhar para uma mulher, com o desejo de possuí-la, já cometeu adultério com ela no seu coração. 29 Se o teu olho direito é para ti ocasião de pecado, arranca-o e joga-o para longe de ti! De fato, é melhor perder um de teus membros, do que todo o teu corpo ser jogado no inferno. 30 Se a tua mão direita é para ti ocasião de pecado, corta-a e joga-a para longe de ti! De fato, é melhor perder um dos teus membros, do que todo o teu corpo ir para o inferno.» 31 Foi dito também: 'Quem se divorciar de sua mulher, dê-lhe uma certidão de divórcio'. 32 Eu, porém, vos digo: Todo aquele que se divorcia de sua mulher, a não ser por motivo de união irregular, faz com que ela se torne adúltera; e quem se casa com a mulher divorciada comete adultério. 33 Vós ouvistes também o que foi dito aos antigos: 'Não jurarás falso', mas 'cumprirás os teus juramentos feitos ao Senhor'. 34 Eu, porém, vos digo: Não jureis de modo algum: nem pelo céu, porque é o trono de Deus; 35 nem pela terra, porque é o suporte onde apoia os seus pés; nem por Jerusalém, porque é a cidade do Grande Rei. 36 Não jures tão pouco pela tua cabeça, porque tu não podes tornar branco ou preto um só fio de cabelo. 37 Seja o vosso 'sim': 'Sim', e o vosso 'não': 'Não'. Tudo o que for além disso vem do Maligno.

Deve ter sido muito difícil para os judeus aceitar que a Lei da Deus, proclamada por Moisés, não era algo absoluto. Jesus, neste ponto, abriu o caminho para os primeiros cristãos superarem as dúvidas nas quais muitos anos depois d’Ele ainda iriam se debater (circuncidar ou não circuncidar, comer ou não comer certos alimentos, cumprir ou não a lei do sábado).

A liberdade com que Jesus interpretava a Lei de Moises poderia dar a impressão de que estava destruindo as bases religiosas do povo da Antiga Aliança. Mas Ele justifica-se dizendo: “Não penseis que vim abolir a Lei e os Profetas. Não vim para abolir, mas para dar-lhes pleno cumprimento”. Jesus não foi contra a Lei de Deus proclamada por Moisés, mas foi para muito além dessa Lei. Quis nos dizer que toda lei é insuficiente e temos que ir muito além da letra da lei, até descobrirmos o seu espírito. A vontade de Deus sempre estará muito além de qualquer formulação humana, por isso temos que seguir aprofundando nela. Não era assim que pensavam os doutores da Lei e os fariseus. Eles se davam por satisfeitos cumprindo ao pé da letra a Lei de Moisés.

Jesus vai à raiz dos mandamentos da Lei de Deus, abrindo um nível de exigência mais amplo e mais profundo (“Se a vossa justiça não for maior que a justiça dos mestres da Lei e dos fariseus, vós não entrareis no Reino dos Céus”). Para tanto apresenta alguns exemplos como o homicídio, o adultério, o divórcio e o juramento usando uma linguagem cheia de antíteses para melhor compreensão do povo (“vós ouvistes o que foi dito... eu, porém, vos digo”).

A primeira, sobre o homicídio e a reconciliação (versículos 21 a 26), tem como base o perdão e o amor fraterno ao ponto de ser mais importante do que o culto que prestamos a Deus (“Portanto, quando tu estiveres levando  a tua oferta para o altar, e ali te lembrares que teu irmão tem alguma coisa contra ti,deixa a tua oferta ali diante do altar, e va primeiro reconciliar-te com o teu irmão. Só então vai apresentar a tua oferta”). A raiz de “não mataras!” é “não odiar” porque o ódio é o caldo de cultivo da violência, que leva à morte. Mesmo inocente, o discípulo de Jesus ofendido deve procurar a reconciliação e o perdão.

A segunda, sobre o adultério e o escândalo (versículos 27 a 30). Neste caso, Jesus vai além do ato em si (adultério) para mostrar que a raiz do mal está na intenção da pessoa (“Aquele que olhar para uma mulher, com o desejo de possuí-la, já cometeu adultério com ela no seu coração”) de forma que muitas vezes será necessário “arrancar” e “cortar”, não o “olho” ou a “mão”, mas a intenção perversa que leva o olho ou a mão a praticar o mal. Não se trata apenas de cumprir normas, mas de livrar-se, até mesmo, do desejo íntimo de transgredir a lei moral. Sem dúvida, isto é “cortar o mal pela raiz”, como se diz na expressão popular.

A terceira refere-se ao divórcio (versículos 31 a 32), tolerado por Moises. Jesus realça a responsabilidade para com a outra pessoa (“quem se divorciar de sua mulher... faz com que ela se torne adúltera”). Esta responsabilidade vai além do cumprimento frio de uma lei (“dê-lhe uma certidão de divórcio”) e não libera da fidelidade matrimonial, como corresponde ao amor verdadeiro e leal (a exceção citada no versículo 32 pode referir-se ao caso de união ilegítima por parentesco que, segundo a Lei de Moises, (Levitico 18, 6-18) era impedimento matrimonial).

A quarta trata do juramento (versículos 33 a 37) muito usado na época para consolidar as relações políticas e interpessoais. Mas a necessidade do juramento já é um sinal de que a mentira e a desconfiança pervertem as relações humanas. Por isso Jesus diz: “Não jures... Seja o vosso 'sim': 'Sim', e o vosso 'não': 'Não'”. Não basta cumprir os juramentos; é necessário que o relacionamento entre as pessoas seja verdadeiro e responsável para gerar um nível de confiança mútua que torne desnecessário jurar.

Uma das situações que o ser humano tem de enfrentar e superar são o conflito nas relações humanas que muitas vezes vem acompanhado pela agressividade e a violência tanto a nível físico quanto moral e psicológico. Jesus conhece bem o coração humano. A violência pode deitar raízes dentro de nós quando vamos deixando que a irritação cresça em nosso interior em confronto com aqueles que nos prejudicam ou simplesmente não pensam ou não agem como nós. A boa qualidade das nossas relações só pode estar garantida quando estamos abertos à reconciliação e ao perdão (“se lembrares que o teu irmão tem alguma coia contra ti..., vá primeiro reconciliar-te teu irmão...”) sem dar nunca espaço para o ódio que destrói a fraternidade.

Outra situação muito importante para o ser humano é a vivência da sexualidade. Jesus convida a superar a Lei nas relações homem-mulher com palavras que tocam tantas feridas abertas, tantos ideais frustrados, tantos sonhos não realizados... As palavras do Senhor podem até incomodar a partir do momento em que pareçam ir  contra a realização pessoal e a liberdade sexual do homem e da mulher tal como se entendem hoje (“quem se casa com a mulher divorciada comete adultério”). No entanto, Jesus exige que as relações homem-mulher sejam vividas da única forma em que podem ser satisfatórias para os dois, que é através de um amor estável e comprometido como consequência da liberdade de escolha que levou o casal a se encontrar e conviver.

A terceira situação, que faz parte da vida, corresponde ao âmbito da comunicação e do diálogo entre as pessoas. As relações humanas com frequência estão contaminadas pela ambiguidade, a mentira e a falsidade. Dizer “seja o vosso 'sim': 'Sim', e o vosso 'não': 'Não'.” exige ter dado um lugar especial à verdade e à sinceridade na mente e no coração. É inútil buscar garantia externa do que é falado, usando recursos como o juramento. A nossa palavra só tem peso por si mesma se a nossa pessoa e a nossa dignidade o tem. Do contrário, nada somos e, por isso, o nosso juramento de nada serve.

+ A vida humana está cheia de perigos e toda decisão é um risco que corremos. Estamos “condenados a ser livres”, ou será que é a liberdade que nos engrandece? As normas e as leis não são imposições que nos escravizam? Certamente o serão se, como ensina São Paulo, nos amarramos a elas como tábua infantil de salvação. Não o serão, porém, se compreendermos que os mandamentos de Deus foram dados para garantir a nossa liberdade diante de tudo o que nos escraviza e sempre são orientações que nos permitem decidir, com plena consciência, sobre a responsabilidade dos nossos atos.

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